Nvidia automotivo quer transformar “tudo o que se move” em algo capaz de se conduzir sozinho. A afirmação é de Xinzhou Wu, vice-presidente responsável pelo braço de mobilidade da Nvidia, em entrevista ao podcast Decoder, do site The Verge.
Segundo o executivo, a companhia já fornece a plataforma de direção assistida que equipa modelos elétricos da Mercedes e trabalha para ampliar projetos semelhantes com diversas montadoras. Esse movimento dialoga com a corrida por inteligência artificial no setor automotivo, tema que tem dominado também a editoria de Inteligência Artificial da S&N.
Do “software-defined vehicle” ao “AI-defined vehicle”
Wu lembra que, durante anos, a indústria discutiu a troca das centenas de ECU’s por alguns poucos computadores centrais, conceito batizado de “software-defined vehicle”. Agora, afirma, a evolução natural é o “AI-defined vehicle”, no qual modelos generativos reescrevem grande parte do código do carro e permitem atualizações frequentes via nuvem.
Para ele, a adoção desse novo padrão avançou mais rápido na China, onde fabricantes começaram diretamente em plataformas elétricas, sem o legado dos motores a combustão. “Todo mundo está migrando para uma arquitetura computacional única porque é assim que se compete”, disse.
Disputa interna por GPUs e metas de receita por milha
Dentro da própria Nvidia, a divisão automotiva precisa negociar capacidade de fabricação e de treinamento com a área de data centers, que hoje responde pelo maior crescimento da empresa. “Mesmo a Nvidia tem oferta limitada de GPUs”, revelou Wu. As decisões, acrescentou, levam em conta potencial de receita imediata e apostas estratégicas em novos mercados.
O modelo de negócios vislumbrado envolve participação na renda gerada por cada quilômetro dirigido de forma autônoma, seja em frotas de robotáxis ou em veículos particulares que paguem por funcionalidades sob demanda.
“Acreditamos que todos os 13 trilhões de milhas rodados por ano serão autônomos”, declarou Wu.
Hyperion 10 e o debate sobre sensores
A oferta da companhia para as montadoras combina chips, sistema operacional de segurança Halos, modelos abertos como Alpamayo e o conjunto de hardware Hyperion 10. Há duas configurações: uma “base”, com 10 câmeras e três radares, voltada a sistemas L2+; e outra “high”, que acrescenta três lidars e sensor redundante para chegar ao Nível 4 de autonomia.
Sobre a polêmica do uso de lidar, Wu foi direto: “O Nível 4 requer lidar”. Ele admite, porém, que é possível avançar sem o sensor a partir de alto volume de dados, embora isso limite o domínio operacional do veículo.
IA conversando consigo mesma
O executivo revelou que a próxima geração de veículos apoiados na plataforma SOAR embarcará modelos que raciocinam em linguagem natural. Durante a condução, a rede neural “fala” enquanto analisa o ambiente, algo já demonstrado em vídeo durante o evento GTC Taiwan.
Para garantir segurança, o sistema roda duas pilhas de software paralelas. A clássica, validada pela norma ISO 26262, funciona como “irmão mais velho” e verifica, quadro a quadro, se a trajetória sugerida pela IA end-to-end é segura.
Cooperação e barreiras regulatórias
O plano de Wu inclui compartilhar dados entre parceiros que adotem o ecossistema Drive, reduzindo custos altos de coleta em campo. Ele reconhece, contudo, que legislações regionais — na Europa ou na China — impõem limitações e obrigam a criação de variantes locais dos modelos.
Em meio a disputas comerciais, a Nvidia continua vendendo chips de inferência abaixo do limite regulatório na China, enquanto colabora com Waymo, Uber e montadoras dos EUA e da Europa. “Não escolhemos vencedores; ajudamos todos a chegarem lá”, resumiu.
Próximos passos da Nvidia automotivo
- Entregar, até o fim do ano, sistemas ADAS em toda a linha Mercedes nos Estados Unidos.
- Expandir a tecnologia para outros mercados a partir de 2025.
- Lançar, em parceria com a Uber, serviços de Nível 4 nos próximos anos.
- Manter 80% das montadoras globais dentro do ecossistema Hyperion para projetos futuros.
Questionado sobre prazos, Wu estimou que veículos de passeio com condução Nível 4 em produção estarão disponíveis “em menos de cinco anos”. Se a previsão se confirmará, a S&N acompanhará de perto.


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