Visa Business and Economic Insights calcula que, dos US$ 93 trilhões detidos pelos baby boomers — hoje com idades entre 62 e 80 anos — somente US$ 36 trilhões deverão chegar aos bolsos de seus herdeiros da Geração X e dos millennials nos próximos 20 anos. É a maior “grande transferência de riqueza” já mapeada, mas, ainda assim, dois terços do montante se dissiparão ao longo do caminho.
Para efeito de comparação, o Produto Interno Bruto dos Estados Unidos projetado para 2025 gira em torno de US$ 31 trilhões. Ou seja, o patrimônio acumulado pelos boomers representa o triplo de tudo o que a economia norte-americana produz em um ano — mas só pouco mais de um terço desse valor será efetivamente herdado.
O estudo da Visa detalha por que o repasse é tão limitado. Dívidas hipotecárias e de consumo, doações filantrópicas feitas pelo 1% mais rico, elevados gastos de aposentadoria, além de impostos e taxas sucessórias, reduzem drasticamente o bolo. Na leitura do Editorial S&N, o dado reforça a importância de planejamento financeiro em uma demografia que vive mais tempo, mas carrega endividamento recorde.
Onde o dinheiro se perde na grande transferência de riqueza
Mesmo sendo a geração mais rica da história, 41% dos proprietários de 65 a 79 anos ainda têm saldo devedor no financiamento imobiliário, percentual que recua para 31% entre os octogenários. Somam-se a isso compromissos em cartões de crédito, empréstimos para compra de automóveis e linhas tomadas contra carteiras de investimento ou empresas familiares.
A Visa quantificou em mais de US$ 4 trilhões o volume apenas das dívidas — cifra que corrói o valor da herança antes mesmo de considerar impostos. A fatia destinada a filantropia, puxada por grandes legados do topo da pirâmide, também reduz o montante transmissível, assim como as despesas médicas crescentes que acompanham a longevidade dos boomers.
Para a S&N, esse movimento indica um ponto de atenção para consultores financeiros: sem estratégias fiscais e sucessórias eficientes, herdeiros podem receber valores bem inferiores às expectativas nutridas durante décadas.
Como as novas gerações devem usar o que receberem
Do total que deve, de fato, mudar de mãos, a Visa projeta que US$ 28 trilhões ficarão em aplicações de longo prazo: poupança, investimentos, imóveis e outros ativos. Já os US$ 8 trilhões restantes tendem a entrar diretamente no circuito de consumo.
O relatório elenca quatro destinos principais para esse dinheiro: habitação, automóveis, viagens e varejo. Para os millennials — grupo que valoriza experiências como turismo, gastronomia e lazer — a herança deve se converter sobretudo em passagens aéreas, reservas em hotéis e refeições fora de casa. A compra ou ampliação da casa própria, contudo, continua sendo prioridade, especialmente diante dos preços imobiliários nas grandes metrópoles.
Cada família herdeira, em média, deverá ter acesso a US$ 515 mil, valor que pode cobrir a entrada de um imóvel, quitar dívidas estudantis ou turbinar aportes de investimento. O impacto sobre setores específicos, como construção civil e indústria automotiva, tende a ser gradual, pois a passagem dos recursos ocorrerá ao longo de duas décadas.
Na avaliação do Editorial S&N, o perfil de gastos sinaliza oportunidades para empresas que alinhem oferta de produtos e serviços ao comportamento de consumo das gerações mais jovens, sem perder de vista a crescente busca por flexibilidade e experiências personalizadas.
O desenho final da grande transferência de riqueza, entretanto, continuará sujeito a variáveis macroeconômicas — de flutuações nas taxas de juros ao desempenho dos mercados acionários. O relatório da Visa alerta que qualquer mudança brusca nessas frentes pode alterar, para mais ou para menos, a proporção de patrimônio realmente disponível aos descendentes.
Entre as incertezas, uma permanece clara: planejamento sucessório e educação financeira serão diferenciais críticos para que millennials e Gen X convertam a herança em prosperidade de longo prazo, em vez de apenas injeção pontual de consumo. Empresas de gestão patrimonial, seguradoras e fintechs já monitoram o fenômeno de perto, de olho nos cerca de US$ 515 mil que, em média, passarão pelas mãos de cada família herdeira.
Com cifras tão expressivas, o debate sobre tributação e alocação de recursos tende a ganhar tração política nas próximas eleições norte-americanas. Apesar de o estudo não detalhar quanto será pago em taxas, a lembrança de que dívidas, impostos e filantropia engolirão quase US$ 60 trilhões reforça que, mesmo na maior transferência de patrimônio de todos os tempos, nada substitui a boa e velha matemática financeira.


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