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Diretrizes da EBU miram sexualização na transmissão de atletas mulheres

Resumo

European Broadcasting Union (EBU) publicou um guia de 23 páginas que, se seguido pelas emissoras, pode transformar a forma como atletas mulheres são...

European Broadcasting Union (EBU) publicou um guia de 23 páginas que, se seguido pelas emissoras, pode transformar a forma como atletas mulheres são enquadradas em transmissões ao vivo. Batizado de “Raising the Bar: Guidelines for Respectful Media Coverage in Women’s Athletics”, o documento foi elaborado em parceria com as atletas Holly Bradshaw, Ivana Španović e Blanka Vlašić.

A iniciativa parte da constatação de que certos enquadramentos desviam a atenção do feito esportivo para detalhes de corpo, reforçando estereótipos e alimentando abusos nas redes. Para a EBU, câmeras e edição têm “implicações profundas” na percepção do público, ao destacar ou eclipsar a técnica das competidoras.

O tema coloca a cobertura jornalística de eventos esportivos no centro de um debate histórico sobre gênero e mídia. Na leitura do Editorial S&N, trata-se de uma pressão concreta para que emissoras revisitem manuais de transmissão antes de grandes torneios que movimentam audiências globais — inclusive no mercado brasileiro.

O que dizem as diretrizes

No material, animações comparativas mostram o que fazer e o que evitar. No salto em altura, por exemplo, a recomendação é usar planos abertos que acompanhem a corrida até o salto. Já enquadramentos de câmera baixa, posicionados sob a atleta, entram na lista dos ângulos a serem evitados.

“Essas escolhas moldam a percepção do público ao desviar a atenção das conquistas e habilidades técnicas das atletas e ao perpetuar estereótipos nocivos”, escreveu Glen Killane, diretor executivo da EBU Sports, no relatório.

Holly Bradshaw, campeã do salto com vara, acrescentou que registros em câmera lenta vêm gerando vídeos recortados que circulam fora de contexto nas redes sociais. “Eu mesma recebi abusos online por causa disso”, relatou a britânica no documento.

As orientações surgem após “anos de preocupações” sobre a sexualização de atletas, aponta o texto. Críticas já tinham mirando não só enquadramentos, mas também os uniformes obrigatórios em determinadas modalidades.

Reação nas redes

Lançado em 8 de junho, o guia ganhou tração semanas depois, quando foi amplamente comentado em plataformas sociais. Entre os críticos, a tônica foi a suposta queda de audiência caso câmeras deixem de explorar closes considerados apelativos. Alguns usuários chegaram a responsabilizar os próprios uniformes femininos.

Por outro lado, muitas postagens enxergaram na repercussão a prova de que as regras continuam necessárias. Uma usuária da rede X ironizou: “Os comentários mostram um monte de homens admitindo que só assistem a esportes femininos para olhar mulheres. Vergonhoso.”

Para a S&N, esse choque de opiniões evidencia o tamanho do mercado que ainda associa valor de entretenimento à exposição do corpo feminino. Se adotadas por ligas e emissoras, as diretrizes podem não apenas proteger a imagem das atletas, mas também reeducar o espectador sobre o que realmente interessa em uma competição: desempenho, estratégia e resultado.

O desfecho prático depende agora de quem detém os direitos de transmissão. Embora a EBU reúna emissoras públicas europeias, nada impede que veículos privados e plataformas de streaming adotem as recomendações como padrão. A médio prazo, a discussão tende a se refletir em contratos de produção, treinamentos de operadores de câmera e métricas de engajamento.

Seja qual for o ritmo da adoção, o guia já cumpre um papel simbólico: sinaliza que a forma de olhar para o esporte feminino está em revisão. A temporada de competições internacionais deste ano servirá de teste para medir quem, de fato, levantará a barra — e quem seguirá mirando no ângulo mais fácil de vender cliques.

Editorial S&N

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