Usiminas enfrenta uma correção expressiva na Bolsa: os papéis caíram mais de 23% nos últimos 30 dias, embora ainda acumulem valorização de cerca de 38% em 2026. O movimento reacendeu o debate entre analistas sobre o espaço para retomada ou novos ajustes.
Segundo o Bradesco BBI, o rali da siderúrgica nos primeiros meses do ano refletiu a melhora do mercado de aço, mas o segundo semestre tende a ser “mais desafiador”. Em relatório, o banco citou custos ascendentes e dificuldades de repasse de preços como vetores de pressão sobre as margens, além do avanço das importações.
Para quem acompanha o setor em Economia & Finanças, o ponto de interrogação está em como a companhia navegará nesse cenário de demanda mais branda e competição externa em alta.
Divergência de recomendações
O BBI manteve recomendação neutra e reduziu o preço-alvo de R$ 10,00 para R$ 8,50 ao fim de 2026, avaliando que não há gatilhos claros para reprecificação no curto prazo. Já o Goldman Sachs seguiu com recomendação de compra, mas revisou o preço-alvo de R$ 10,50 para R$ 10,00 por ação, ponderando a “elevada alavancagem operacional” da Usiminas a um mercado interno mais ajustado.
Na leitura do Editorial S&N, a diferença entre os dois bancos ilustra o descompasso típico de ciclos de commodities: quando as curvas de custo e preço se estreitam, pequenas variações de demanda podem amplificar a percepção de risco ou oportunidade.
Revisões de projeções
O Bradesco BBI cortou estimativas para a receita líquida da companhia para R$ 23,97 bi em 2026, R$ 24,68 bi em 2027 e R$ 25,98 bi em 2028. As projeções anteriores chegavam a R$ 26,24 bi no último ano. Para o Ebitda ajustado, as novas expectativas são de R$ 2,41 bi, R$ 2,85 bi e R$ 3,51 bi, respectivamente. As margens também foram recalibradas, passando a 10% em 2026 e 13,5% em 2028.
No resultado final, o banco prevê prejuízo de R$ 3,08 bi em 2025, seguido de lucros de R$ 1,35 bi em 2026, R$ 1,01 bi em 2027 e R$ 1,53 bi em 2028 — cortes expressivos ante a projeção anterior que indicava R$ 1,83 bi em 2028.
O Goldman, por sua vez, aumentou em 2% a estimativa de Ebitda para 2026, mas reduziu em 7% e 3% os números de 2027 e 2028, refletindo expectativa de custos maiores tanto no aço quanto na mineração. Para o segundo trimestre de 2026, o banco projeta Ebitda de R$ 668 mi e lucro líquido de R$ 316 mi.
Já a XP Investimentos aposta em expansão gradual de margens, que teriam ficado próximas de 4% no quarto trimestre de 2025 e ganhariam tração para patamar de dois dígitos em 2026 e 2027. A casa observa que eventual antidumping sobre bobinas a quente serviria de impulso adicional, embora parte desse ganho possa ser anulada pelo aumento de custos.
“A relação risco-retorno hoje parece mais equilibrada; seguimos sem catalisadores claros de curto prazo”, apontou o BBI no relatório.
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Impacto do mercado de aço e concorrência
Após três tentativas de reajuste, os preços domésticos de aço plano mostram sinais de acomodação. De acordo com o Goldman, o suporte veio de medidas de proteção comercial e custos mais altos, mas compras antecipadas e estoques cheios limitaram novas altas. O banco acredita que o baixo volume de importações observado desde o primeiro trimestre pode apertar o mercado no fim de 2026, se a demanda reagir.
A ameaça mais visível, contudo, está no fluxo vindo do Vietnã, que subiu em junho e exige monitoramento, segundo o mesmo relatório. Importações maiores dificultam o repasse de preços locais e comprimem margens de players como Usiminas.
Fora do radar da companhia, o Goldman reiterou preferência por Ternium e Gerdau, mais expostas a mercados norte-americanos considerados resilientes. Para CSN e CSN Mineração, a recomendação seguiu em venda devido à pressão sobre geração de caixa e deterioração dos prêmios de minério de ferro, respectivamente.
Geração de caixa ainda contida
A XP calcula fluxo de caixa livre (FCF yield) de cerca de 5% para 2027-2028 na Usiminas, cifra considerada modesta diante do ciclo intensivo de investimentos em capital. Para a S&N, esse ponto é crucial: mesmo que Ebitda e margens avancem, o investidor tende a olhar o caixa efetivo antes de reavaliar agressivamente o múltiplo da ação.
No curto prazo, o consenso é que o balanço segue saudável, mas a visibilidade sobre preços e custos continua limitada. Qualquer surpresa — positiva ou negativa — virá pelo comportamento do aço plano no mercado interno e pela política de importações.
Enquanto isso, o mercado testa o piso dos R$ 8,50 a R$ 10 sugeridos pelos bancos. Se os custos desacelerarem ou as barreiras comerciais forem reforçadas, o papel pode reencontrar tração. Do contrário, o ajuste atual pode converter-se em nova rodada de revisões.
Relevância: a correção de Usiminas se tornou um termômetro para todo o setor siderúrgico brasileiro. O segundo semestre delineará se o recuo foi apenas realização de lucros ou prenúncio de margens mais apertadas — questão que interessa de perto a investidores, fornecedores e clientes industriais.


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