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Times Square vira arquibancada global durante a Copa do Mundo

Resumo

Times Square tornou-se, desde o apito inicial da Copa do Mundo, uma arquibancada a céu aberto que reúne torcedores de todos os continentes sob letreiros...

Times Square tornou-se, desde o apito inicial da Copa do Mundo, uma arquibancada a céu aberto que reúne torcedores de todos os continentes sob letreiros de néon e personagens fantasiados. Nenhum telão oficial foi instalado, mas o pedaço mais movimentado de Manhattan virou zona de fãs por conta própria, com camisas de Neymar, Vini Jr. e Dr. Simi dividindo o mesmo mosaico humano.

No último domingo visitado pela reportagem original, o cruzamento entre a 46th Street e a 7th Avenue reluzia amarelo: centenas de brasileiros aguardavam o duelo contra a Noruega no MetLife Stadium, em Nova Jersey. Dias antes, o mesmo local ficara vermelho, ocupado por noruegueses sincronizados em sua tradicional “row”, enquanto colombianos em amarelo, azul e vermelho desfilaram uma bandeira gigante pelos degraus da TKTS. O vaivém de cores faz das placas luminosas uma moldura viva para a festa.

Bogdan Zhukovskyi, artista que há 15 anos vende pinturas na região, compara os blocos de torcedores a “um navio cortando o mar” pela uniformidade de camisas e bandeiras. Para a S&N, esse relato reforça como o espaço público — quando pensado para pedestres — converte-se em motor de experiências coletivas, tema caro à editoria de Cultura.

Uma década de calçada livre

O fenômeno coincide com o décimo aniversário da completa transformação da Times Square em praça para pedestres. A decisão, radical para um dos cruzamentos mais congestionados do planeta, seguiu a lógica de priorizar pessoas em vez de carros. A Copa mostrou o resultado: quando a cidade faz espaço para a vida pública, ela floresce — nem sempre de maneiras previsíveis.

“Há sempre algo acontecendo”, diz Milenny Guimarães, que viajou de Boston a Nova York apenas para sentir o clima da partida do Brasil “no coração da cidade”. O sentimento é partilhado por Edgar Manica, mexicano que saiu de San Francisco “em busca da vibe” e acabou virando atração fotográfica de Pedro Cabas, 14 anos, brasileiro que decidiu colecionar selfies com torcedores de diversas seleções.

Turismo emocional e redes sociais

Vídeos viralizados ajudam a manter o fluxo. Marcel Coelho, brasileiro, reservou hotel a menos de um quarteirão ao notar no Instagram a concentração de compatriotas no local. Sem verba para ingressos no estádio, planejou assistir ao jogo no Hard Rock Cafe e, mesmo após a derrota para a Noruega, considerou a viagem “já paga” pela cantoria compartilhada.

A espontaneidade das coreografias surpreende até quem trabalha ali diariamente. Sydney C., funcionária da região há um ano, estranhou ver noruegueses sentados no chão em preparação para a “row” — “Achei que iam voltar para casa com alguma doença”, brinca. Depois, reconheceu que as imagens ficaram “muito legais”.

A presença mexicana ganhou reforço inusitado: Dr. Simi, mascote de rede farmacêutica que se tornou ícone futebolístico, anunciou aparição especial. Quando surgiu, torcida vestida de verde saltou em uníssono; alguns balançavam matracas de madeira, outros exibiam máscaras de lucha libre. Para Janelle Luna, que saiu de Long Island, “é ótimo reunir tantos mexicanos a cada quatro anos”.

Contraponto ao clima geopolítico

Em tempos de tensões globais, a cena beira o utópico: adesões nacionais distintas convergem na idolatria do futebol e convivem pacificamente. Talvez por isso a Times Square tenha festejado o fracasso da Great American State Fair, evento vizinho acusado de visões nativistas. O contraste evidencia como espaços inclusivos encontram eco popular quando celebram diversidade em vez de isolamento.





Na leitura do Editorial S&N, o caso oferece lição para gestores urbanos e marcas: iniciativas caras podem naufragar se ignorarem o desejo de encontro espontâneo. A Times Square não precisou de telão patrocinado nem de programação oficial para virar vitrine da Copa; bastou manter calçadas livres, assentos abertos e Wi-Fi para transmissões nos celulares. Resultado: engajamento orgânico que atrai turistas, movimenta comércio e reforça a imagem cosmopolita da cidade.

Quando o árbitro encerrou Brasil x Noruega, muitos esperariam dispersão. Em vez disso, surgiram torcedores do México formando uma “esmeralda flutuante”, nas palavras de Zhukovskyi. Entre vapor de carrinhos de comida halal, eles provaram que a festa na Times Square não depende do placar — depende das pessoas que escolhem aquele palco para torcer, cantar e serem vistas. Se há uma lição da Copa fora de campo, ela brilha em luzes de LED bem no centro de Manhattan.

Enquanto novas seleções avançam no torneio, segue incerto qual cor dominará os degraus da TKTS amanhã. Certa mesmo é a relevância desse laboratório urbano para a próxima década: cidades que ousarem devolver o asfalto ao pedestre podem, quem sabe, erguer a sua própria “times square” — não em letreiros, mas em pertencimento coletivo.

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