Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR) bateu o martelo: a tarifa adicional de 25% sobre produtos brasileiros começa a valer em 22 de julho. Contudo, a lista de exceções divulgada na mesma decisão inclui petróleo, café, carne bovina, aeronaves e celulose – justamente alguns dos itens mais relevantes da pauta exportadora nacional.
Para analistas consultados por InfoMoney e compilados pelo Editorial S&N, essa configuração transfere o tarifaço dos holofotes macroeconômicos para um plano mais setorial. A avaliação predominante é que o impacto sobre o PIB tende a ficar entre 0,1 e 0,2 ponto percentual, conforme estimou a Pilar Capital, por causa da proteção concedida ao agronegócio e à indústria aeronáutica.
Segundo a XP, “grande parte dos produtos mais importantes da pauta exportadora brasileira não será taxada”, o que limita a potência da medida. A Ágora reforça que a ampliação da lista de isentos atenua a aversão ao risco em ativos domésticos. Já o Bradesco BBI lembra que as exportações de minério de ferro, cobre e alumínio ao mercado norte-americano são pouco significativas – e também ficaram fora da tarifa.
Em números, o USTR liberou mais de 2.100 linhas tarifárias. O pacote contempla carnes, café, peças de aeronaves e parte relevante da celulose. Para a Embraer (EMBJ3), por exemplo, a exceção zera um potencial efeito financeiro, segundo o banco.
Onde o fôlego não chega
Mesmo após o alívio, etanol, máquinas agrícolas, bens industriais, açúcar, tabaco, têxteis e calçados continuam expostos. Sidney Lima, da Ouro Preto Investimentos, observa que papéis ligados a siderurgia, metalurgia, máquinas e equipamentos podem sentir mais pressão, enquanto bancos, utilities e companhias voltadas ao mercado interno devem atravessar a turbulência com menor volatilidade.
Análise da S&N na editoria de Economia & Finanças indica que os segmentos afetados representam cerca de US$ 15 bilhões em embarques anuais aos EUA, parcela modesta frente aos setores blindados. Ainda assim, a margem de manobra das companhias para redirecionar vendas ou repassar custos ao exterior será testada.
Reflexos sobre câmbio, inflação e juros
O principal canal de preocupação, apontam especialistas, é o câmbio. Se parte das exportações minguar, o fluxo de dólares pode diminuir, fortalecendo a moeda norte-americana frente ao real. Um real mais fraco tende a encarecer importados e pressionar a inflação, o que dificultaria cortes futuros da Selic. Marcelo Bassani, da Boa Brasil Capital, chama atenção para o risco de o Brasil adotar a Lei da Reciprocidade e taxar produtos americanos: “O consumidor final acabaria pagando essa conta”.
Na leitura do Editorial S&N, esse movimento indica que o efeito final pode não vir do lado comercial direto, mas sim do canal financeiro: volatilidade cambial eleva prêmio de risco, alonga curva de juros e, por tabela, encarece o capital para empresas e famílias.
Componente política pesa
Bruno Corano, da Corano Capital, associa a decisão do USTR a um contexto político: apesar de manter superávit comercial com o Brasil, Washington citou assuntos como Pix, desmatamento e regulação para justificar a medida. A ausência de um diálogo de alto nível entre os presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Donald Trump reduz a probabilidade de reversão rápida, avalia o economista.
Associações empresariais também subiram o tom. A Amcham Brasil calcula que mais de US$ 11 bilhões em exportações podem ficar sob ameaça e critica o “tratamento mais restritivo” conferido ao País. A Fiesp lamenta a “aplicação unilateral” das tarifas e aponta risco de perda de competitividade global.
O que monitorar daqui para frente
- Negociações diplomáticas: avanço ou retrocesso nas conversas Brasília-Washington pode reprecificar ativos rapidamente.
- Desempenho do câmbio: volatilidade do real frente ao dólar sinaliza impactos inflacionários e influencia a curva de juros.
- Resposta brasileira: eventual adoção de tarifas retaliatórias pode ampliar pressões de custo sobre a indústria local.
- Ajuste nas cadeias: empresas que anteciparem diversificação de mercados e fornecedores tendem a amortecer choques.
Valdir Piran Jr., da Intra Asset, resume: a resiliência das companhias dependerá da “habilidade de reorganizar cadeias comerciais e preservar margens”. André Matos, CEO da MA7 Negócios, reforça que o mercado olha mais para o tamanho da lista de exceções do que para o percentual de 25% em si.
Para investidores, a recomendação predominante é observar como os segmentos industriais incluídos na tarifa reajustarão preços ou buscarão novos destinos. Já as empresas protegidas podem se beneficiar de uma percepção de risco menor, caso o câmbio não ultrapasse limites considerados críticos pelo Banco Central.
Por ora, as mesas de negociação incorporam o tarifaço às projeções sem alterar de forma expressiva os cenários base. Mas, como alertou Lucca Bezzon, da StoneX, a combinação de inflação americana em desaceleração, tensões geopolíticas e barreiras tarifárias forma um coquetel potencialmente volátil para o segundo semestre.
Em suma, o tarifaço existe e começa em julho, mas sua eficácia em apertar a economia brasileira ficou limitada pelo número de exceções. A fotografia de hoje sugere um risco moderado; o filme, porém, dependerá das cenas diplomáticas e cambiais que ainda serão gravadas.


Comentários
Participe com respeito. Comentários passam por proteção anti-spam simples.