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Software imita mofo-de-lodo para redes urbanas mais resilientes

Resumo

Mireta Urban Dynamics, startup formada por arquitetos e cientistas de dados, está levando aos gabinetes de urbanistas um software que replica o modo como...

Mireta Urban Dynamics, startup formada por arquitetos e cientistas de dados, está levando aos gabinetes de urbanistas um software que replica o modo como o mofo-de-lodo monta seus próprios caminhos em busca de alimento. A promessa é simples e direta: redes de transporte até 30% mais resilientes sem um centavo a mais de investimento.

No centro da plataforma está um experimento clássico realizado no Japão há pouco mais de dez anos. Pesquisadores dispuseram flocos de aveia – iguaria predileta do organismo unicelular – nos pontos equivalentes às cidades da Grande Tóquio. O mofo, ao conectar cada “estação” de comida, acabou reproduzindo um traçado muito semelhante ao sistema ferroviário japonês, famoso pela eficiência.

Para o cofundador Raphael Kay, formado em arquitetura, trata-se de aproveitar uma inteligência que a evolução refinou “por centenas de milhões de anos”. Segundo ele, enquanto a humanidade projeta estradas há milênios, determinados organismos enfrentam desafios logísticos comparáveis desde tempos imemoriais. A categoria de Tecnologia da S&N acompanha o avanço dessas bioinspirações no setor.

Biologia primeiro, IA depois

Diferentemente da maior parte das soluções que dependem de grandes bases de dados para treinar inteligência artificial, a Mireta parte do comportamento biológico como motor principal do cálculo. O algoritmo simula o crescimento do mofo-de-lodo, que busca permanentemente o equilíbrio entre custo (quilômetros construídos) e redundância (rotas alternativas em caso de falhas).

Sobre essa “inteligência natural” são adicionadas camadas de informações convencionais de planejamento urbano. População por bairro, mapas de alagamento ou prioridade para determinadas zonas podem ser carregados pelo usuário. Recursos de IA ajudam a compilar esses insumos, mas o cerne da solução permanece ancorado na lógica evolutiva do organismo.

“Há um trade-off belíssimo, desenvolvido pela natureza, entre custo e resiliência”, afirma Kay. “Os seres vivos pagam caro quando erram essa conta – eles morrem. Por isso evoluíram estratégias de redundância estratégica.”

Casos-piloto e resultados

Até o momento, a empresa colabora com escritórios de design em projetos que vão de uma malha viária para um campus universitário a uma nova rede de metrô. Todas as propostas ainda aguardam aprovação dos clientes, mas relatórios internos apontam ganhos de 20% a 30% em resiliência – medida pela capacidade do sistema continuar operando mesmo quando um trecho é interrompido por desastre natural ou falha técnica – mantendo o mesmo orçamento previsto por métodos tradicionais.

Na leitura do Editorial S&N, esse movimento sinaliza duas tendências convergentes: a busca de municípios por infraestrutura adaptada a extremos climáticos e o avanço de modelos computacionais que dispensam grandes volumes de dados proprietários, reduzindo barreiras de adoção em cidades médias.

Mercado aquecido por mudanças climáticas

Com incêndios florestais, enchentes e ondas de calor cada vez mais frequentes, prefeitos e agências metropolitanas passaram a exigir indicadores concretos de resiliência antes de liberar verbas. “Só recentemente os ventos mudaram e as municipalidades começaram a pagar por soluções de longo prazo”, relata Kay. Para ele, falta ferramental quantificável que responda a essa demanda – lacuna que a Mireta tenta preencher.

O software opera em dois modos. No primeiro, parte do zero e sugere a malha mais vantajosa entre cada origem e destino definido pelo planner. No segundo, avalia redes existentes e indica ajustes pontuais – troca de sentido em vias, criação de ramos adicionais, realocação de estações – para aumentar a capacidade de contorno a bloqueios.

Se confirmados em projetos reais, os ganhos de eficiência podem alterar a equação financeira de grandes obras de mobilidade, onde margens percentuais representam centenas de milhões de reais. Para a S&N, esse tipo de abordagem bioinspirada tem potencial de se tornar padrão em licitações que exijam comprovação de robustez diante de eventos climáticos extremos.

Até lá, Kay e equipe seguem refinando o algoritmo, ampliando o conjunto de parâmetros que o usuário pode inserir e capturando feedback dos primeiros clientes corporativos. O mofo-de-lodo continua servindo de guia silencioso: sempre em busca do caminho mais curto que garanta, ao mesmo tempo, uma saída de emergência quando a rota principal desaba.

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