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Taxa de US$100 mil para visto H-1B divide Big Tech e cai na Justiça

Resumo

Uma decisão da Justiça federal em Boston suspendeu, nesta semana, a cobrança extraordinária de US$100 mil sobre cada nova petição de visto H-1B,...

Uma decisão da Justiça federal em Boston suspendeu, nesta semana, a cobrança extraordinária de US$100 mil sobre cada nova petição de visto H-1B, criada em setembro do ano passado pelo então presidente Donald Trump. O mesmo valor, que as jovens empresas de inteligência artificial encararam como custo estratégico, tornou-se inviável para gigantes com milhares de estrangeiros no quadro de funcionários.

Do entusiasmo dos laboratórios de IA ao recuo das big techs

Números oficiais de certificação analisados pela revista Fortune mostram a mudança de comportamento logo após a tarifa entrar em vigor:

  • Nvidia registrou aumento de 19 % nos pedidos aprovados no primeiro trimestre de 2026 em relação ao mesmo período de 2025, somando cerca de 765 processos.
  • OpenAI mais que triplicou suas solicitações.
  • Anthropic saltou de aproximadamente 10 para quase 60 registros.

Enquanto isso, Amazon, Google e Microsoft — acostumadas a patrocinar milhares de profissionais estrangeiros por ano — reduziram drasticamente as requisições. Meta e Apple também apresentaram queda, ainda que menos acentuada. Para empresas desse porte, a sobretaxa multiplicada por centenas ou milhares de vagas representaria um impacto bilionário no orçamento de recursos humanos.

“A taxa poderia ser proibitiva para muitos. Minha própria família não teria condições de arcar com US$100 mil”, lembrou Jensen Huang, cofundador e CEO da Nvidia, em entrevista à CNBC em outubro passado.

O desenho da política, no entanto, era mais restrito do que a manchete sugeria. A tarifa incidia apenas uma vez, sobre petições protocoladas depois de 21 de setembro de 2025 e, em geral, para candidatos vindos do exterior. Renovação ou transferência de visto realizada dentro dos Estados Unidos não pagava o adicional, abrindo espaço para empresas buscarem atalhos — da contratação de profissionais já residentes à migração para outras categorias de visto.

Mesmo assim, o volume total de inscrições despencou. O Serviço de Cidadania e Imigração dos EUA (USCIS) recebeu 211.600 aplicações válidas para o ciclo fiscal de 2027, contra 343.981 no ano anterior, segundo dados citados pelo Business Insider. O declínio afetou sobretudo pequenas e médias companhias, que tradicionalmente se beneficiam do programa para atrair competências técnicas raras.

A disputa jurídica sobre a cobrança

A tarifa logo virou tema de três ações distintas. Na mais recente, o juiz distrital Leo Sorokin, em Boston, atendeu a 20 estados que classificaram a medida como “tributo sem autorização do Congresso”. A sentença contradiz outra decisão, proferida em Washington, D.C., onde o valor havia sido mantido após contestação da Câmara de Comércio dos EUA. Um terceiro processo, aberto por organizações trabalhistas e religiosas em São Francisco, ainda não foi julgado.

Com o impasse espalhado por três circuitos de apelação, analistas do setor já projetam que o caso possa chegar à Suprema Corte, embora o próprio decreto tenha validade limitada: ele expira em setembro de 2026. Até lá, empregadores permanecem em dúvida sobre a necessidade de desembolsar — ou provisionar — US$100 mil em cada pedido iniciado hoje, já que o governo indicou que vai recorrer.

O debate gira em torno de duas visões opostas. Trump defendeu publicamente que trabalhadores norte-americanos precisam “aprender as competências técnicas” trazidas por estrangeiros, argumento ventilado em entrevista à Fox News pouco antes de deixar o cargo. De outro lado, um estudo do Federal Reserve de Richmond apontou que vencer a loteria do H-1B elevou receita, emprego e até a taxa de sobrevivência das empresas entre 2020 e 2023, sugerindo impacto positivo na competitividade doméstica.

Por que a decisão importa

Em plena corrida global por especialistas em aprendizagem profunda e chips avançados, o visto H-1B continua sendo uma das principais portas de entrada para talentos de alto nível nos Estados Unidos. Entre as empresas focadas em fronteira tecnológica, o custo adicional foi absorvido sem hesitação graças aos orçamentos bilionários de pesquisa e à escassez de profissionais qualificados.

“Nvidia ampliou seus pedidos de H-1B mesmo pagando US$100 mil por petição, porque o ganho potencial de um único pesquisador pode justificar o investimento”, resume o levantamento da Fortune. Já para corporações que operam em escala massiva — casos de Amazon, Google ou Microsoft — o cálculo muda: multiplicado por dezenas de milhares de vagas, o valor extra torna-se proibitivo.

Independentemente do desfecho judicial, o episódio demonstra como políticas migratórias podem redistribuir, de forma quase instantânea, o fluxo de profissionais qualificados entre empresas, setores e até países. Para startups e scale-ups internacionais, a suspensão temporária representa oportunidade de manter abertas as portas do maior mercado de capital e inovação do mundo.

No Brasil, o tema repercute entre fundadores que acompanham de perto os movimentos de alocação de talento global — assunto que a editoria Negócios & Inovação monitora em cobertura permanente.

Por ora, os candidatos estrangeiros e os departamentos de recursos humanos ficam no aguardo de novas orientações do USCIS. Se o valor voltar a valer em caso de recurso bem-sucedido, o mercado pode assistir a mais uma rodada de ajustes estratégicos — e a inevitável pergunta sobre quem, afinal, paga a conta da inovação.

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