Nas últimas 48 horas, cidades ucranianas foram alvo de uma intensa campanha de drones e mísseis que marcou a maior e mais persistente ofensiva de longo alcance desde o início da guerra. Segundo o presidente ucraniano Volodymyr Zelenskyy, entre quarta e quinta-feira o país sofreu o lançamento de 1.567 drones e 56 mísseis, uma operação que ele definiu como “massiva e praticamente contínua”.
Especialistas que monitoram ataques com os drones do tipo Shahed afirmam que o episódio confirma a adoção de um novo modo operacional por parte do Kremlin: em vez de empregar as aeronaves apenas à noite, quando são mais difíceis de detectar, a Rússia tem lançado ondas prolongadas que se estendem pelo dia, obrigando civis a buscar abrigo por horas.
Quem e como
O analista ucraniano Igor Anokhin, do Institute for Science and International Security, afirmou que esse ataque recente é o quinto período sustentado de lançamentos promovido pela Rússia neste ano. Ele citou como precedentes uma operação no fim de março que envolveu quase 1.000 drones em 24 horas e outra em meados de abril que durou 32 horas.
As forças ucranianas recorrem a uma defesa em camadas que inclui equipes móveis com metralhadoras, drones interceptores, guerra eletrônica e mísseis defensivos avançados. Ainda assim, a elevada quantidade de alvos pressiona o sistema, podendo obrigar o uso de interceptores caros contra drones baratos e abrir espaço para mísseis de maior capacidade. Zelenskyy declarou que 93% dos drones foram derrubados nessa operação, enquanto 73% dos mísseis foram interceptados. Até a noite de quinta-feira, 24 pessoas haviam morrido e 48 ficaram feridas.
Por que ataques diurnos?
Segundo Anokhin, o objetivo declarado das janelas prolongadas é gerar pressão psicológica e terror econômico: manter cidades em alerta por muitas horas, interromper a rotina civil e atingir infraestruturas críticas, como a rede elétrica. Relatos de jornalistas que passaram horas em abrigos antibombas em Kyiv ilustram o desgaste causado pelo novo padrão.
O pesquisador Federico Borsari, do Center for European Policy Analysis, acrescentou que muitas das aeronaves usadas como isca trazem sensores eletro-ópticos, o que permite reconhecimento do campo de batalha enquanto consome mísseis defensivos ucranianos. Dessa forma, as ondas diurnas também serviriam para identificar alvos móveis e sistemas antiaéreos que podem ser atacados em seguida.
Produção e impacto operacional
Uma mudança importante para viabilizar a tática é a maior capacidade de produção russa. Anokhin e Borsari apontam a fábrica principal em Yelabuga (Alabuga), na região do Tartaristão, como peça-chave do esforço. Imagens de satélite mostraram expansão no complexo, com novas instalações e hangares que ampliaram o campus em 340 hectares e trabalhos em outros 450 hectares, segundo reportagem da Radio Free Europe de 9 de maio.
Dados analisados por Anokhin mostram que o uso de Shaheds cresceu desde o início de 2025: a participação dos modelos iranianos no total de lançamentos subiu de 59% no outono para 64% na primavera. Em abril, 66% dos drones de ataque de voo direto lançados eram Shaheds, segundo sua análise.
Apesar do aumento no volume ofensivo, a eficácia direta tem caído: enquanto quase um terço dos Shaheds atingia alvos no outono, essa proporção caiu para cerca de 14% em abril. Os Shaheds custam menos de US$50.000 cada e carregam até 110 libras (aproximadamente 50 kg) de explosivos, com capacidade de causar desabamentos de edificações e vítimas civis.
Pesquisadores e analistas consultados por Business Insider acreditam que as ondas diurnas de drones tendem a se consolidar como tática, ainda que reste dúvida sobre a efetividade do planejamento de alvos por parte da Rússia.
Com informações de Businessinsider

