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Nova linha do 737 Max em Everett simboliza retomada da Boeing

Resumo

Boeing colocou em operação neste mês, em Everett (estado de Washington), a segunda linha de produção do 737 Max — passo crucial para elevar a...

Boeing colocou em operação neste mês, em Everett (estado de Washington), a segunda linha de produção do 737 Max — passo crucial para elevar a cadência do jato mais vendido da companhia e consolidar a virada após anos de turbulência.

Até então, o 737 saía quase exclusivamente da fábrica de Renton, que chegou ao teto de capacidade. A transferência de fuselagens verdes-esmeralda para o hangar de Everett, conhecido como North Line, materializa um investimento de US$ 1 bilhão e envolve cerca de 1.000 funcionários, metade remanejada de Renton, segundo a diretora Jennifer Boland-Masterson. O movimento, destacado pela seção Negócios & Inovação da S&N, recoloca a Boeing na rota de crescimento num momento em que as companhias aéreas disputam cada slot de entrega disponível.

Produção acelera após aval da FAA

Na sexta-feira, a Administração Federal de Aviação dos EUA (FAA) restituiu à Boeing o poder de emitir certificados de aeronavegabilidade para todos os 737 Max e 787, autoridade que vinha sendo limitada desde 2020. O órgão citou “qualidade de produção consistente” ao suspender a restrição que obrigava revisões semana sim, semana não.

Trata-se de um salto em relação ao cenário de janeiro de 2024, quando o desprendimento de um painel num voo de 737 Max reacendeu o escrutínio regulatório instaurado pelos acidentes de 2018-2019, que deixaram 346 mortos. Desde então, a produção do modelo ficou contingenciada a 38 unidades mensais; começou a subir para 42 e, neste ano, a meta é sustentar 47 jatos por mês. Com a nova linha, a empresa pretende chegar a 52 e, futuramente, ultrapassar esse patamar.

“A Boeing está em trajetória ascendente, ainda que longe do voo de cruzeiro”, avaliou o consultor Jerry Lundquist, em declaração reproduzida pela reportagem original. O mercado parece concordar: no primeiro semestre, a fabricante entregou 314 aviões — o melhor desempenho desde 2018 — e exibe carteira comercial recorde de US$ 576 bilhões, ou 6.200 aeronaves.

Pressão da demanda e desafio Airbus

O cronograma cheio é impulsionado pela “febre de encomendas” descrita pelo economista Stuart Hatcher, da consultoria IBA. Centenas de novos pedidos são esperados para o Farnborough Airshow, no Reino Unido. Ainda assim, a rival europeia Airbus continua à frente, com mais que o dobro de pedidos em 2026 e produção igualmente ajustada ao limite.

Na leitura do Editorial S&N, o avanço em Everett tem significado que vai além dos volumes: sinaliza ao mercado de capitais que a Boeing começou a transformar cultura e processos — pontos frágeis expostos pelas crises. Cada 737 entregue deve liberar entre US$ 10 milhões e US$ 20 milhões em caixa, estima a analista Sheila Kahyaoglu, da Jefferies, valor crucial para financiar novos programas e reduzir a distância competitiva em relação à Airbus.

Modelos atrasados perto da certificação

Paralelamente, a Boeing diz estar “com o caminho claro” para certificar três aviões problemáticos:

  • 737 Max 7 (menor versão do modelo)
  • 737 Max 10 (maior versão)
  • 777-9 (fuselagem larga para mais de 400 passageiros)

O Max 10 estreia o sistema Enhanced Angle of Attack, concebido para simplificar alertas aos pilotos e exigido após as investigações dos acidentes fatais. O recurso será instalado em toda a frota Max dentro de dois anos. Já o Max 7 e o Max 10 recebem ajustes no anti-gelo do motor. O 777-9 soma 1.700 voos de teste e passa por ensaios estruturais que simulam até o dobro da vida útil prevista.

“Guerra contra defeitos” e cultura interna

Depois do incidente de 2024, a Boeing adotou o que chama de “guerra contra defeitos”. A empresa reduziu em quase 20% o tempo gasto em retrabalho na linha do 737 nos três primeiros meses de 2026, cortou permissões para tarefas fora de sequência e intensificou treinamentos. A compra, em 2025, da fornecedora Spirit AeroSystems — responsável pelas fuselagens — resultou em queda de 40% nas não-conformidades detectadas na chegada das peças.

No campo da cultura, a companhia coletou opiniões de dezenas de milhares de empregados e criou cinco valores e 15 comportamentos-guia. Um deles, citado textualmente, resume o recado interno: “Importe-se de verdade!”

Para a S&N, esse mantra deixa claro que a Boeing tenta substituir a lógica de pressão por cronogramas — apontada como raiz das falhas de segurança — por um modelo que privilegie qualidade e responsabilidade compartilhada. Trata-se de condição sine qua non para reconquistar a confiança de reguladores, clientes e passageiros.

Com a North Line em funcionamento, o 737 Max responde agora por cerca de 70% do backlog da Boeing. A fábrica de Everett, considerada pelo Guinness World Records o maior prédio do mundo em volume, divide espaço com as linhas do 777, do cargueiro 767 e do tanque militar KC-46A, além de ter produzido o último 747 em 2023. A herança monumental contrasta com o desafio contemporâneo: produzir mais, melhor e sem falhas.

Se conseguir manter a cadência prometida, a Boeing poderá reduzir o intervalo de entregas — hoje já empurrado para a década de 2030 — e ganhar fôlego na disputa por novos contratos. O próximo checkpoint virá justamente em Farnborough, onde fabricantes costumam medir força pelo barulho das encomendas anunciadas. Aguardemos os números que sairão da pista britânica.

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