NASA confirmou a partida, ainda neste verão boreal, de um grupo de seis missões suborbitais que integrarão a série Earth Venture e levarão sensores de alta precisão a bordo de aviões, helicópteros, drones e balões. O objetivo é refinar previsões meteorológicas, mapear riscos naturais e melhorar políticas públicas nos Estados Unidos e no exterior.
Concebidas para preencher lacunas entre estações de solo e satélites, as missões suborbitais da NASA aproximam a coleta de dados do fenômeno estudado, seja a poucos metros do solo ou a 20 quilômetros de altitude. Esse formato ágil — recomendado pelo Conselho Nacional de Pesquisa norte-americano em 2007 — mobilizará, nos próximos anos, centenas de cientistas, pilotos e engenheiros da agência, da Marinha dos EUA, de universidades e outras instituições. Veja como cada investigação será conduzida.
Na prática, os voos funcionarão como laboratórios móveis altamente instrumentados, conceito que inspira diversos projetos de inovação tecnológica listados na seção Tecnologia da S&N.
Das nuvens de fogo às megacidades
Primeira a ganhar os céus, a INjected Smoke and PYRocumulonimbus Experiment (INSPYRE), liderada pelo Laboratório de Pesquisa Naval, terá base no Colorado. Aeronaves como o ER-2 da NASA, que opera em altitudes de estratosfera, perseguirão “nuvens de fogo” — tempestades que se formam quando incêndios florestais extremos geram calor suficiente para criar seus próprios cumulonimbus carregados de raio. Dois rastreadores infravermelhos de última geração, desenvolvidos no Jet Propulsion Laboratory e integrados ao programa FireSense, mapearão em tempo real a evolução dessas colunas de fumaça, fundamentais para alertas aéronauticos e prevenção de novos focos.
Também em 2026, o FarmFlux, coordenado pelo Goddard Space Flight Center com apoio da Colorado State University e da Boston University, instalará mais de uma dúzia de sensores sobrevoando da região Meio-Oeste aos campos da Califórnia. A missão quantificará ozônio, metano, amônia e material particulado que saem de plantações e instalações pecuárias, substâncias que afetam a saúde humana, o clima global e a camada de ozônio estratosférica.
Quando o tema é poluição urbana, a Hemispheric Airborne Measurements of Air Quality (HAMAQ), liderada pelo Langley Research Center, comparará duas metrópoles com desafios distintos: Atlanta e Cidade do México. Um P-3B voará a baixa altitude coletando amostras diretas, enquanto o recém-convertido jato científico 777 sobrevoará em cruzeiro para produzir mapas remotos de poluentes. O desenho biorrítmico entre voo baixo e alto avaliará como topografia e condições meteorológicas influenciam a dispersão de partículas finas e gases.
Monitoramento acelerado no Ártico
O Ártico aquecido duas vezes mais rápido que o restante do planeta também entrou no radar. A Snow4Flow, chefiada pela Universidade do Arizona, percorrerá áreas remotas do Alasca, Yukon, Groenlândia e Svalbard num avião da Segunda Guerra Mundial modernizado. Com laser altímetro e radares customizados, a equipe medirá a espessura superficial e as profundidades congeladas de centenas de geleiras, conectando os dados a imagens de satélite e modelos de fluxo de neve para prever futuras taxas de retração.
Na mesma região, a Frontlines of Rapidly Transforming Ecosystems (FORTE), consórcio entre NASA Goddard e City College of New York, examinará como rios, lagunas e estuários do North Slope do Alasca exportam carbono e sedimentos para o Oceano Ártico à medida que o permafrost derrete. O arsenal inclui aviões, embarcações de pesquisa, veículos autônomos subaquáticos e drones, além de interação contínua com comunidades locais e indígenas.
Fora do círculo polar, a atenção se volta para encostas instáveis. A Landslide Change Characterization Experiment (LACCE), do Jet Propulsion Laboratory, empregará radar de abertura sintética aerotransportado e sensores terrestres para acompanhar taludes na Califórnia que alternam entre secas prolongadas e chuvas torrenciais. O projeto estudará ainda a aceleração de escorregamentos em áreas do Alasca onde o recuo acelerado de geleiras aumenta o risco de mega-tsunamis.
Para a S&N, esse conjunto de iniciativas evidencia como a convergência entre engenharia aeroespacial e ciência climática oferece oportunidades a empresas de sensores, análise de dados e modelagem. O setor privado, inclusive brasileiro, pode se beneficiar de parcerias tecnológicas ou da adoção dos conjuntos de dados gerados — gratuitos e abertos — para desenvolver serviços de agronegócio, seguros e infraestrutura resiliente.
Criado para ser flexível e de alto impacto, o programa Earth Venture Suborbital já investigou, em ciclos anteriores, blizzards, recifes de coral e redemoinhos oceânicos. A nova geração amplia a abordagem, cobrindo desde incêndios que fabricam sua própria meteorologia até mudanças profundas na hidrologia do Ártico. A expectativa é que os resultados alimentem modelos globais e regionais, aprimorem alertas de desastres e orientem decisões de gestores públicos e privados.
Com voos programados até o final da década, as missões suborbitais da NASA reforçam que inovação e pesquisa caminham lado a lado quando o tema é adaptação às mudanças climáticas — pauta que, na leitura do Editorial S&N, deve ganhar ainda mais protagonismo em investimentos estratégicos e políticas setoriais nos próximos anos.


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