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Ali al-Zaidi tenta equilibrar EUA e Irã e aposta em negócios

Resumo

Ali al-Zaidi, recém-empossado primeiro-ministro do Iraque, desembarcou em Washington sob fogo cruzado: Estados Unidos e Irã travam um conflito direto, e...

Ali al-Zaidi, recém-empossado primeiro-ministro do Iraque, desembarcou em Washington sob fogo cruzado: Estados Unidos e Irã travam um conflito direto, e Bagdá fica exatamente no meio. Segundo reportagem do The Atlantic, o líder de 41 anos levou ao Salão Oval uma proposta em tom empresarial: reduzir a presença militar americana e ampliar o fluxo de capitais para seu país.

Na prática, o premiê reitera a tarefa que todos os antecessores herdaram desde 2003: convencer Washington de que o Iraque não virou um posto avançado iraniano – e garantir a Teerã que não será trampolim dos EUA. Ao conversar com o presidente Donald Trump, al-Zaidi reafirmou a meta de retirar os cerca de 2 000 soldados americanos até 30 de setembro. “Presença militar não cria laços entre sociedades; engajamento econômico, sim”, disse ele na entrevista concedida ao veículo norte-americano.

Esse discurso ganha eco entre analistas que veem na reconstrução econômica uma alternativa ao ciclo de violência. No entanto, o terreno é instável: milícias alinhadas à Guarda Revolucionária do Irã ainda circulam armadas, enquanto ataques recentes na Jordânia e em território iraquiano mataram três militares dos EUA, aumentando a temperatura da crise. Para quem acompanha os impactos geopolíticos sobre a economia, o recado é claro: basta um incidente para o Iraque voltar ao centro do tabuleiro.

Menos tropas, mais negócios

Al-Zaidi resume sua estratégia em uma frase – desta vez reproduzida literalmente pelo The Atlantic:

“Economic engagement does.”

Para sustentar a tese, ele cita acordos energéticos assinados em Washington e um plano de parceria de 30 anos que, afirma, deveria substituir o vocabulário militar pelo de investimentos. A conta, contudo, chegou antes da renda: com o Estreito de Hormuz parcialmente bloqueado pelo embate regional, o Iraque calcula perda de US$ 50 bilhões em exportações de petróleo. O Fundo Monetário Internacional projeta retração de 6,8% no PIB local em 2026.

Na leitura do Editorial S&N, a fala do premiê ecoa um movimento que já se percebe em outros mercados emergentes: governos expostos a choques externos tentam atrair capital privado como escudo econômico. Se funcionar em Bagdá, pode reforçar a tese de que infraestrutura e energia são os caminhos mais rápidos para reduzir a dependência de tropas estrangeiras.

O desafio das milícias

A permanência de grupos armados é o calcanhar de Aquiles do plano iraquiano. Influenciadas por Teerã, as facções operam sem controle pleno do Estado e costumam responder a qualquer escalada entre EUA e Irã. Al-Zaidi prometeu que, até 30 de setembro, esses grupos serão desarmados ou incorporados às Forças de Segurança do Iraque. Em tom irritado, disse ao repórter que “não existe opção além de entregar as armas”.

Washington, por sua vez, mantém presença militar para treinar tropas iraquianas e vigiar células remanescentes do Estado Islâmico. Autoridades americanas citadas pelo The Atlantic avaliam que, se a trégua com o Irã ruir, os soldados estacionados no Iraque podem virar ponta de lança para uma resposta rápida – mas também se tornam alvos mais expostos.

Um outsider na política de Bagdá

Filho da geração moldada por guerras sucessivas, al-Zaidi nasceu durante o conflito Irã-Iraque dos anos 1980. Formado nos negócios antes de entrar na política, ergueu um império em agricultura, logística e energia. Seu banco, porém, perdeu acesso a transações em dólar após suspeitas de lavagem de dinheiro ligada ao Irã.

A ascensão ao cargo de premiê em abril deste ano ocorreu como solução de compromisso depois que o ex-primeiro-ministro Nouri al-Maliki, próximo a Teerã, foi rejeitado por Trump. Al-Zaidi promete não formar partido, abrir mão do salário oficial e limitar-se a um mandato de quatro anos – mensagens que agradam tanto a eleitores cansados de corrupção quanto a investidores que buscam estabilidade institucional.

Logo no primeiro mês, ele autorizou operações anticorrupção na Zona Verde de Bagdá, prisão de dezenas de funcionários e do vice-ministro do Petróleo. A medida tenta sinalizar que “desta vez é diferente”, expressão que, vale lembrar, já foi usada por quase todos os primeiros-ministros iraquianos no pós-Saddam.

O que importa para o Brasil

Para empresas brasileiras de óleo, gás e construção que atuam no Oriente Médio, o futuro do Iraque influencia custos de frete, seguros e preços internacionais do petróleo. Se al-Zaidi conseguir desarmar milícias e reabrir rotas comerciais, a tendência é aliviar a volatilidade que hoje pressiona contratos de exportação. Caso contrário, novos fechamentos no Golfo podem repicar, por exemplo, no câmbio e na inflação de combustíveis por aqui.

A S&N seguirá monitorando se o premiê iraquiano transforma o discurso “menos soldados, mais negócios” em política de Estado. O relógio corre até 30 de setembro – data-limite que, se falhar, reforçará a máxima citada pelo próprio al-Zaidi: mesmo o vencedor pode sair perdendo.

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