Claire Vaye Watkins voltou a posicionar o árido deserto de Mojave no centro da literatura norte-americana. Segundo reportagem do Literary Hub, a autora lança “Yellow Pine”, romance que acompanha o retorno de Rose à sua terra natal — uma planície agora ameaçada pela instalação de um megaparque solar privado e de possíveis data centers.
Reconhecida por obras como “Battleborn” (vencedora do Story Prize em 2012) e “Gold Fame Citrus”, Watkins nasceu na pequena Bishop, cresceu entre Tecopa (Califórnia) e Pahrump (Nevada) e se confessa filha do território: “O lugar é minha musa”, diz. Essa relação visceral sustenta a trama de “Yellow Pine”, marcada por uma ecologia de afetos, conflitos ambientais e debate sobre a industrialização de áreas desérticas.
No universo literário brasileiro, onde discussões sobre meio ambiente e transição energética também avançam, a chegada de um título que concilia narrativa íntima e crítica socioambiental amplia o cardápio de referências. Vale acompanhar a seção Literatura da S&N para seguir o assunto.
Mojave traduzido em ficção — e conflito
O enredo de “Yellow Pine” acompanha Rose, profissional do Sierra Club às vésperas dos 40 anos, que se refugia em Nothingness Flats para repensar a vida. Ali, reencontra Miles, antigo amor, e cruza o caminho de ativistas que protestam contra a usina fotovoltaica Yellow Pine, erguida pela gigante NextEra Energy em cinco mil acres de terras públicas. A área abriga 90 mil iúcas centenárias e abrigava 139 tartarugas-do-deserto adultas antes das primeiras escavações.
Watkins observa que o projeto real — localizado no sul do vale de Pahrump — reflete um paradoxo: empresas privadas lucram com a “economia verde” enquanto comunidades locais arcam com o custo ambiental. Para ela, confiar ao capital o comando da transição energética é “absurdo”, porque o objetivo de um investidor é o lucro, não a preservação da vida.
O romance também ilumina a multiplicação de data centers em regiões isoladas do Oeste americano. Especialistas citados pela autora, como Patrick Donnelly, do Center for Biological Diversity, classificam o processo de industrialização do Mojave como um “banho de sangue” ecológico: vastas extensões viram “zonas de sacrifício” em nome de infraestrutura elétrica que, muitas vezes, abastece inteligência artificial e serviços digitais, não a população local.
Reencontros, maternidade e circularidade
“Yellow Pine” não é só denúncia. A trajetória de Rose envolve reconexão amorosa, desejo de ter um segundo filho e reflexões sobre retornar — ao território, à própria história, a quem se foi um dia. Nas primeiras linhas, Watkins descreve Miles como alguém “transformado”, e brinca com um narrador pontual em primeira pessoa, recurso que confere mistério ao texto.
A escritora conta que a vulnerabilidade de tentar de novo — um romance, um relacionamento, uma gravidez — a atraiu. “Reunir amantes assusta as pessoas, mas a repetição é padrão natural”, afirma. A ideia de ciclos também emerge na paisagem: o deserto, aparentemente imóvel, revela-se organismo vivo que exige “estudo, lentidão e humildade”, nas palavras da própria autora.
Rose carrega ainda um livro de ensaios de Joy Williams, cuja frase sobre o tempo como círculo inspira a personagem a aceitar limites concretos — biológicos e climáticos. O tique-taque do relógio biológico, por exemplo, adiciona urgência à narrativa, espelhando a corrida global por emissões zero antes que o aquecimento se torne irreversível.
Vozes e referências do Oeste
Para compor o romance, Watkins recorre a nomes que já escreveram sobre o Oeste norte-americano — de Joan Didion a Edward Abbey — e a lideranças indígenas como Corbin Harney, que defendia interdependência entre povos e território. Entre os personagens fictícios, destaca-se Fran, poeta ecofeminista inspirada parcialmente na ativista Shannon Salter, que acampou por meses no verdadeiro canteiro de obras de Yellow Pine.
A autora acompanha o “garimpo verde” no Mojave desde 2016 e enumera algumas vitórias parciais de moradores: moratória a novos projetos solares em Nye County, bloqueio temporário a minas de lítio na bacia do rio Amargosa e redução da área do próprio complexo Yellow Pine, preservando um bosque de Joshua trees. Ela reconhece, porém, que mudanças estruturais são necessárias para frear o avanço das grandes corporações energéticas.
Leitura do Editorial S&N
Para a S&N, o percurso de Watkins sinaliza duas tendências que merecem atenção no Brasil. Primeiro, a literatura como ferramenta de mobilização socioambiental: obras que mesclam afeto, paisagem e crítica podem ganhar espaço num país que discute transição energética na Amazônia e no semiárido. Segundo, o alerta sobre modelos de geração elétrica centralizada orientados ao mercado — questão igualmente sensível nos leilões de energia solar no Nordeste e na instalação de data centers em zonas rurais.
“Yellow Pine” chega às prateleiras norte-americanas pela Riverhead Books; ainda não há edição em português. Mas a repercussão do lançamento — potencializada por prêmios prévios da autora, como Guggenheim e “5 Under 35” da National Book Foundation — deve atrair editoras brasileiras interessadas em ficções climáticas. Enquanto isso, leitores locais podem revisitar “Gold Fame Citrus” ou “Battleborn”, já disponíveis em inglês, para entender por que o deserto segue sendo, para Watkins, tanto berço criativo quanto campo de batalha.


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