Sonho & Negócios (S&N)®
Contato

Por que J. D. Vance aposta em parecer “ingênuo” na política dos EUA

Resumo

J. D. Vance, vice-presidente dos Estados Unidos e autor do best-seller “Hillbilly Elegy”, voltou ao centro do debate ao lançar “Communion” —...

J. D. Vance, vice-presidente dos Estados Unidos e autor do best-seller “Hillbilly Elegy”, voltou ao centro do debate ao lançar “Communion” — obra cujo título ecoa um livro da escritora bell hooks. Segundo reportagem do The Atlantic, a coincidência não é o único ponto que chama atenção: Vance tem se empenhado em adotar uma persona pública que aparenta desconhecer fatos elementares, ainda que seu histórico acadêmico em Yale desminta a suposta ingenuidade.

A tendência ganhou novos holofotes após uma entrevista a Joe Rogan, em que Vance se disse perplexo com a reação negativa a um lutador de UFC que ofendeu Michelle Obama. Dias antes, ele fingira surpresa ao ouvir que democratas votam mais pelo correio do que republicanos — dado amplamente documentado. Para o The Atlantic, esses gestos compõem uma estratégia de “populismo performático”, na qual o político simplifica o debate a ponto de soar deliberadamente confuso.

O comportamento se repete desde 2025, quando Vance declarou em um podcast que seria “estúpido” considerar todos os soldados confederados como más pessoas — apesar de o debate real girar em torno de estátuas e nomes de bases militares. Na leitura do Editorial S&N, cada nova fala reforça a impressão de que o vice-presidente subestima a inteligência do eleitorado ao apostar num discurso raso e, às vezes, conspiratório.

Da elegia ao populismo performático

Formado com honras pela Ohio State University e pela Yale Law School, Vance era visto como “esponja intelectual” por colegas, conforme relata o veículo norte-americano. Ainda assim, ele tem promovido teorias sem comprovação, como a de que forças ocultas estariam por trás do assassinato do comentarista conservador Charlie Kirk, ou que Jeffrey Epstein mantinha ligações secretas com governos estrangeiros. O padrão, descreve The Atlantic, preocupa até pessoas próximas, entre elas sua esposa.

Em outra ocasião, o senador defendeu que aplausos democratas ao rei Charles III, no Congresso, provariam hipocrisia de quem critica manifestações “No Kings” voltadas contra Donald Trump. O argumento foi exposto em uma coletiva na Casa Branca, onde Vance sustentou, com seriedade, que opositores “talvez não se importem tanto com reis quanto fingem”.

O que a performance revela

Para analistas citados na matéria, o ex-autor crítico de Trump agora replica a tática do ex-presidente: explorar ressentimentos com frases de efeito fáceis de compartilhar nas redes. No entanto, pesquisas do instituto YouGov indicam que sua aprovação está no terreno negativo há mais de um ano. Em focus group liderado pela estrategista republicana Sarah Longwell, eleitores de Trump qualificaram Vance como “frio” e “pouco autêntico”.

Ao confessar a Rogan que existe um “populismo de fachada” que trata o público como ignorante, Vance parece ter descrito inadvertidamente seu próprio roteiro. O The Atlantic relembra que, em 2016, ele escrevia no mesmo veículo que Donald Trump prestava “desserviço” ao transformar problemas reais do “cinturão enferrujado” em munição demagógica. Hoje, sustenta posições que antes combatia.

Para a S&N, esse movimento indica um alerta para a comunicação política em qualquer democracia: quando líderes instruídos adotam narrativas simplistas ou conspiratórias, podem até galvanizar nichos, mas correm o risco de alienar o eleitor moderado e perder capital de credibilidade — ativo cada vez mais escasso na era da desinformação.





No Brasil, onde o debate público também sofre com a polarização e o crescimento de teorias sem lastro, o caso de Vance serve de exemplo de como a “estética da ignorância” pode ser tentadora, mas não necessariamente sustentável. Se a estratégia continuar corroendo sua popularidade nos EUA, candidatos locais talvez pensem duas vezes antes de cultivar o mesmo personagem.

Resta saber se Vance voltará à voz ponderada que o consagrou como escritor ou se continuará apostando na caricatura. O desfecho, observado de perto pelo eleitorado norte-americano, dirá muito sobre os limites — e custos — do populismo performático no século XXI.

Discussão

Comentários

Participe com respeito. Comentários passam por proteção anti-spam simples.

Deixe seu comentário

Seu e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *.

Proteção anti-spam leve, sem plugin externo.