Vincent Smith, professor emérito da Universidade Estadual de Montana e diretor de estudos de política agrícola do American Enterprise Institute, aponta que a escalada recente dos preços dos alimentos nos Estados Unidos reflete muito mais a inflação geral do que uma distorção específica do setor.
Em entrevista ao podcast The David Frum Show, da revista The Atlantic, o economista detalhou como tarifas de importação, queda na oferta de gado e custos logísticos maiores se combinam para apertar o orçamento das famílias norte-americanas. A conversa, repercutida agora pela S&N, reforça que a discussão é macroeconômica e não meramente “culpa do supermercado”.
Para leitores brasileiros, o tema se conecta diretamente à categoria de Economia & Finanças, já que pressões inflacionárias e políticas comerciais semelhantes influenciam as gôndolas daqui.
Inflação generalizada, não só nos alimentos
Segundo Smith, os preços dos alimentos subiram, em média, quase no mesmo ritmo da inflação global nos últimos anos. Itens consumidos fora de casa avançaram 4 % em 2024, enquanto produtos para preparo doméstico cresceram apenas 1 %. A percepção de alta, porém, é maior porque se trata de um bem essencial e comprado com frequência.
O professor lembra que o pico ocorreu em 2022, quando a pandemia desorganizou cadeias de suprimento e a inflação bateu recordes. “O consumidor sente cada centavo a mais no café ou no pão, algo que não acontece com móveis, comprados raramente”, resume ele.
“Do ponto de vista empírico, é falso afirmar que tarifas reduzem preços; quase 100 % do custo recai sobre o consumidor”, afirmou Smith ao programa, conforme transcrição publicada por The Atlantic.
Beef boom: a carne bovina como caso extremo
Se o índice geral acompanha a inflação, a carne bovina foge à regra. Em 2023, o preço médio de cortes bovinos e de vitela avançou perto de 12 %, contra menos de 3 % do índice de alimentos. O motivo principal não está nos quatro grandes frigoríficos que dominam o mercado, sustenta Smith, mas na decisão econômica dos pecuaristas.
- Rebanho menor: diante da valorização da arroba e de secas prolongadas em regiões produtoras, muitos ranchos venderam vacas menos produtivas em vez de mantê-las.
- Custo de ração: alta no preço do milho e de fertilizantes encareceu a engorda.
- Demanda externa: países asiáticos, sobretudo a China, aumentaram a procura por proteína animal, elevando a cotação global.
Para o economista, subsidiar pequenos abatedouros — ideia defendida pelo governo Trump — não derrubará o preço do bife a curto prazo. “São operações boutique, com custo maior que o dos grandes frigoríficos”, observa.
Tarifas e política migratória agravam a conta
Outra fatia do encarecimento recai sobre a política comercial. A administração Trump elevou tarifas sobre insumos como fertilizantes e sobre alimentos importados. Estudos citados por Smith indicam repasse quase integral das tarifas ao consumidor final, além de ajustes para cima nos preços de produtores locais.
A restrição migratória também pesa. A agricultura norte-americana utiliza intensivamente mão de obra imigrante em colheitas de frutas, hortaliças e na pecuária. Menos trabalhadores disponíveis significam salários e, por consequência, custos operacionais mais altos.
“Um pacote anti-inflação coerente exigiria juros mais altos, orçamento público equilibrado, derrubada de tarifas e fluxo migratório compatível com a demanda do campo”, resume o professor.
O que isso diz ao Brasil
Para a S&N, esse movimento indica que a formação de preços dos alimentos depende de fatores globais interligados. Caso medidas protecionistas avancem em grandes economias, commodities como soja e milho — vitais ao agronegócio brasileiro — podem enfrentar volatilidade semelhante à vista nos EUA, com reflexo direto no custo da cesta básica nacional.
Além disso, a discussão sobre mão de obra migrante ecoa em setores agrícolas brasileiros que já relatam dificuldade de contratação em picos sazonais. Políticas de imigração e programas de trabalho temporário tendem a ganhar relevância por aqui.
Em suma, a alta de preços nas prateleiras norte-americanas serve de alerta: quando tarifas, clima e oferta de trabalho se combinam, a conta chega rápido ao consumidor — esteja ele no Texas ou em São Paulo.


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