Como o excesso de anúncios e os paywalls agressivos estão afastando os leitores – e o que os números provam.
Abri um portal de notícias hoje cedo. Queria ler uma matéria simples, nada demais. O que encontrei foi um circo.
Antes de chegar ao segundo parágrafo, já tinha fechado três pop-ups, assistido a um vídeo que começou sozinho com o som no máximo e me deparado com um aviso em tela cheia: “Você leu 2 de 3 artigos gratuitos este mês. Assine agora para continuar.” Dois artigos. No mesmo dia em que abri o site pela primeira vez na vida. Haha.
Isso tem nome: desespero. E ele tem cheiro.
O que os sites de notícias fizeram com a experiência do leitor
A grande imprensa digital chegou ao século XXI com tudo, audiência, credibilidade, estrutura, e decidiu, deliberadamente, destruir a experiência do próprio leitor para tentar lucrar em cima do desconforto que ela mesma criou. Anúncios que empurram o texto para baixo enquanto você tenta ler. Banners que piscam. Overlays que bloqueiam a tela. Contadores de artigos que parecem mais uma ameaça do que uma política editorial.
E os resultados estão aí para quem quiser ver. Globo, UOL, CNN e Terra registraram quedas entre 15 e 21% de visibilidade nas buscas do Google em períodos recentes. Um estudo da empresa de análise de dados Authoritas apontou queda de ao menos 20,6% no tráfego de veículos jornalísticos por conta dos resumos gerados por IA no Google. Mas convenhamos: parte desse problema não é culpa da IA. É culpa de uma imprensa que foi afastando o leitor aos poucos, anúncio por anúncio, pop-up por pop-up.
O problema não é o paywall – é como ele é usado
Vou ser direto: não tenho nada contra cobrar pelo conteúdo. Conteúdo bom tem valor, e valor tem preço, isso eu defendo com convicção. O problema não está no modelo de assinatura em si. O problema está quando o site trata o leitor como refém antes de mostrar por que ele deveria se tornar fiel. Não se cativa audiência com bloqueio. Cativa-se com relevância.
Apenas 17% dos brasileiros afirmam pagar por notícias online, segundo o Reuters Institute. Ou seja, 83% do público ainda precisa ser conquistado, não bloqueado. E ao digitar “paywall” no Google, uma das primeiras perguntas que aparecem é “como fugir do paywall?”. Isso diz tudo sobre a relação que a imprensa construiu com o seu próprio leitor.
O leitor de hoje não é refém de ninguém
Hoje, 78% dos brasileiros se informam por fontes digitais, principalmente pelo smartphone. Ele tem dez outras abas abertas, um podcast no ouvido e um feed infinito esperando por ele. Se o seu site virou um campo minado de anúncios e interrupções, ele fecha a aba e segue em frente, simples assim. E você fica gritando sozinho para uma tela vazia. Haha.
Há algo profundamente equivocado num modelo de negócios que pune quem chegou até você. Que enxerga o leitor não como alguém a ser servido, mas como uma métrica a ser convertida. Que prefere a receita do clique irritado à construção de uma relação de confiança.
O jornalismo tem responsabilidade – e está falhando com ela
O jornalismo tem importância. Tem função. Tem responsabilidade. Mas quando um veículo abandona o leitor para abraçar o algoritmo, ele não está lutando pela sobrevivência, está cavando a própria cova com elegância.
Se a imprensa digital quer respeito, precisa, primeiro, respeitar quem a lê.
Davi Santiago é fundador e presidente da S&N Global Media®.


Entendo o ponto, mas o artigo romantiza demais o lado do leitor. Manter uma redação com repórteres, editores e infraestrutura custa caro. Muito caro. Se o leitor não quer pagar e também não quer ver anúncio, como o veículo sobrevive? O Guardian que é sempre citado como exemplo recebe doações milionárias de fundações estrangeiras. Contexto importa.
Artigo publicado em portal que provavelmente tem pop-up de newsletter, botão de WhatsApp flutuante e banner no rodapé. Kkkk. Não estou errado, estou? De qualquer forma, o argumento é válido. A diferença é que uns exageram no veneno e outros sabem dosar.
Finalmente alguém falou o que todo mundo pensa. Eu cancelei minha assinatura do Globo depois de entrar no site pelo celular e ter que fechar 6 anúncios antes de ler uma linha. SEIS. É desrespeito mesmo, não tem outro nome. E ainda ficam reclamando que o jornalismo está morrendo. Mataram vocês mesmos.