O Brasil precisa ampliar políticas de eficiência energética e mecanismos de deslocamento do consumo para reduzir a pressão sobre as tarifas de eletricidade, dizem especialistas e estudos citados por autoridades do setor. A combinação de aparelhos mais eficientes, gestão da demanda e modernização das redes é apresentada como alternativa para postergar investimentos caros e diminuir custos sistêmicos.
Por que o tema é urgente
A conta de luz tornou-se um ponto sensível para famílias, empresas e para a competitividade do país, afetada pelo aumento da demanda, necessidade de modernização da infraestrutura, crescimento da micro e minigeração distribuída, encargos setoriais e maior exposição a eventos climáticos extremos. Em resposta, a presidência brasileira da COP30 priorizou, até 2030, o triplo da capacidade em energias renováveis e o dobro dos ganhos em eficiência energética.
O que é eficiência energética e quais resultados já existem
A eficiência energética reduz o consumo necessário para prestar um mesmo serviço mediante equipamentos, edificações e processos mais eficazes. No Brasil, o Programa Nacional de Conservação de Energia Elétrica (Procel), coordenado pelo Ministério de Minas e Energia (MME) e executado pela ENBPar, é um instrumento antigo e relevante nessa frente. Segundo o Relatório de Resultados do Procel 2025, com ano-base 2024, as ações do programa geraram economia de 23,79 bilhões de kWh — equivalente a 4,24% do consumo elétrico do país naquele ano — e reduziram a demanda de ponta em 7.594 MW.
Outro mecanismo é o Programa de Eficiência Energética (PEE), regulado pela ANEEL, que obriga distribuidoras a investirem parcela da receita operacional líquida em projetos nessa área. Esses instrumentos visam escalar medidas que não dependam apenas da iniciativa individual do consumidor.
Deslocamento do consumo: por que o horário importa
Além de usar menos, é preciso consumir melhor. O custo do sistema elétrico é afetado não só pelo volume, mas pelo momento em que a energia é demandada. Quando a demanda se concentra em horários de pico, aumenta a necessidade de capacidade adicional e reforços na rede. Instrumentos como a Tarifa Branca sinalizam custos diferentes ao longo do dia e podem ser vantajosos para quem consegue deslocar consumo para horários fora do pico.
Na prática, porém, o sinal de preço isolado tem eficácia limitada. Experiências em sandbox regulatório da Energisa mostraram que, mesmo com variações tarifárias relevantes, a maioria dos consumidores não altera substancialmente seu perfil de consumo. Estudos internacionais citados no texto indicam baixa elasticidade-preço do consumo residencial: pesquisas publicadas em Energy Economics (análise de 12 países europeus), trabalhos do NBER com consumidores em Illinois e evidências sobre tarifas horárias na Suíça apontam respostas modestas ao preço quando não há instrumentos complementares.
Para que a gestão da demanda ganhe escala, é preciso combinar sinal econômico com automação, digitalização, informação em tempo real e desenho regulatório que considere as limitações do cotidiano dos usuários. Fernando Cezar Maia, vice-presidente de Assuntos Regulatórios e Institucionais do Grupo Energisa, ressalta que não basta criar sinal de preço e esperar adaptação automática; é necessário oferecer ferramentas que facilitem a participação do consumidor.
Desafios da geração distribuída e modernização das redes
O crescimento da geração distribuída impõe variações e desbalanceamentos nas redes de distribuição, exigindo novos equipamentos e mudanças na configuração das redes. Segundo Fernando Cezar Maia, esses ajustes demandam investimentos que acabam pressionando a tarifa, porque o sistema precisa se adaptar para manter o controle de tensão e a confiabilidade operacional.
Impacto na conta de luz e prioridades para avançar
Eficiência energética e deslocamento do consumo não reduzem tarifas por decreto, mas diminuem a necessidade de gastos adicionais que se refletem na conta no médio e longo prazo. São medidas frequentemente mais rápidas e mais baratas do que a mera expansão de capacidade e ainda trazem cobenefícios como redução de emissões e maior resiliência do sistema.
Para avançar, o país precisa: reforçar sinais econômicos e regulatórios claros; combinar tarifas com automação, digitalização e informação acessível; ampliar escala de eficiência em setores de maior impacto — climatização, refrigeração, motores, iluminação, edificações e processos industriais — e incorporar o deslocamento do consumo ao planejamento setorial. Também é necessário garantir justiça energética, para que instrumentos de eficiência e gestão da demanda não fiquem restritos a consumidores de maior renda.
Medidas individuais continuam importantes — troca por equipamentos mais eficientes, atenção ao Selo Procel, manutenção e uso racional de aparelhos — mas a agenda deve ser tratada como infraestrutura invisível: políticas e tecnologias que permitam ao consumidor participar sem assumir sozinho a responsabilidade pela adaptação do sistema elétrico.
Na prática, a pergunta estratégica para o Brasil passa a ser menos “como gerar mais energia?” e mais “como usar melhor a energia que já existe?”, integrando eficiência, flexibilidade e modernização das redes como parte do desenho do sistema futuro.
Com informações de Mittechreview
