Bombas de calor continuam avançando no mercado norte-americano de aquecimento residencial: de janeiro a março de 2026, os aparelhos venderam 32% mais que as fornalhas a gás, segundo dados da Air Conditioning, Heating, and Refrigeration Institute (AHRI), entidade que cobre cerca de 90% do setor.
A performance surpreende porque, desde 1º de janeiro deste ano, não há mais o crédito fiscal de até US$ 2 mil que estimulava a compra desses sistemas entre 2023 e 2025. Ainda assim, os embarques não apenas se mantiveram como subiram ligeiramente em relação a dezembro, contrariando a lógica de que o incentivo era indispensável.
Para quem acompanha a agenda de sustentabilidade, o comportamento reforça a percepção de maturidade dessa tecnologia. Na leitura do Editorial S&N, trata-se de um indicativo de que o valor econômico gerado pela eficiência energética — e não apenas o subsídio público — começa a falar mais alto na decisão dos consumidores.
Eficiência na veia — e no bolso
O funcionamento da bomba de calor é simples na teoria, mas poderoso na prática: um circuito de fluido refrigerante capta calor de um lado e o libera do outro, aquecendo o ambiente com uso mínimo de eletricidade. O resultado é um equipamento capaz de entregar aquecimento (e, ao inverter o ciclo, refrigeração) com custos operacionais menores que os de fornalhas a gás, sistemas a óleo ou resistências elétricas convencionais.
Graças a essa eficiência, o número de unidades vendidas no país dobrou nos últimos 15 anos. E o ritmo não dá sinais de cansaço: o AHRI registra crescimento sazonal na passagem do inverno para a primavera, mas a curva de 2026 está ligeiramente acima da média histórica.
Crédito cortado, mercado resiliente
O fim do subsídio foi resultado do pacote de cortes anunciado pelo governo Trump ao desmontar trechos da Inflation Reduction Act. A decisão ocorreu meses depois de benefício semelhante, de até US$ 7.500 para veículos elétricos, ter expirado em 30 de setembro de 2025 — episódio que levou o segmento automotivo a um tombo imediato nas vendas.
Com as bombas de calor, o roteiro foi inverso. Em análise recente, o economista Lucas Davis, da Universidade da Califórnia em Berkeley, observou que a demanda se manteve sólida sem a ajuda fiscal. Para Davis, o mercado já adquiriu tração própria:
“It appears that the U.S. market for heat pumps is strong enough that it does not depend on tax credits.”
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Na prática, o crédito teria funcionado apenas como catalisador inicial, não como pilar estrutural da adoção. A comparação com os elétricos ilustra a diferença: enquanto o consumidor de carro sente o peso do incentivo no preço final, quem opta pela bomba de calor calcula também a economia de energia ao longo dos anos — e essa conta, cada vez mais, fecha sem ajuda do Tesouro.
A conquista de um espaço global
O avanço não se limita aos Estados Unidos. Relatório da Agência Internacional de Energia (IEA) aponta “movimento forte” na adoção de bombas de calor em mercados como China e Alemanha. O reconhecimento é tamanho que, em 2024, a MIT Technology Review incluiu a tecnologia em sua lista anual de inovações disruptivas, declarando que “entramos na era da bomba de calor”.
O desafio restante continua sendo o custo inicial de aquisição e instalação, hoje superior ao de soluções a gás. Mas o histórico recente sugere que o mercado encontrou novas alavancas — como aumento nos preços do gás, maior familiaridade de instaladores e consumidores e linhas de financiamento verdes.
Para a S&N, esse movimento indica que políticas públicas podem acelerar a curva de adoção, mas a sobrevivência de uma tecnologia de descarbonização depende, em última instância, de seu valor intrínseco para o usuário. No caso das bombas de calor, a equação parece resolvida, e a tendência é que a disputa com as fornalhas a gás siga pendendo para o lado elétrico nos próximos invernos.
Editorial S&N


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