Brasil detém biodiversidade abundante, matriz energética majoritariamente limpa e um dos maiores agronegócios do planeta, mas ainda assim capta menos de 1% dos cerca de US$ 90 bilhões investidos globalmente em startups de economia climática (climatechs), segundo estimativa apresentada no programa “O Clima na Faria Lima”.
No debate, a cofundadora e CFO da Terradot, Júlia Marisa Sekula, e o diretor-executivo do Fórum Brasileiro das Climatechs, Zé Gustavo, defenderam que o País reúne “todas as vantagens competitivas para ser o melhor e maior mercado” nessa nova fronteira econômica. Apesar disso, a maior parte do capital que sustenta as climatechs brasileiras segue vindo de investidores estrangeiros — sinal de oportunidade ainda pouco explorada internamente.
O tema ganha relevância em um momento em que, globalmente, ciência, inovação e finanças convergem para a construção de soluções de baixo carbono. Na editoria de Sustentabilidade da S&N, esse movimento já se consolida como motor de competitividade entre países.
Capital farto lá fora, escasso aqui
Levantamento citado por Júlia indica que fundos especializados em tecnologia climática levantaram mais de US$ 90 bilhões nos últimos anos, consolidando o segmento dentro da indústria global de venture capital. Entretanto, a América Latina — e, por consequência, o Brasil — atrai fração ínfima desse montante.
“O Brasil tem muita coisa que a gente não se dá conta de quantas vantagens competitivas tem como país”
Para Zé Gustavo, o contraste torna-se ainda mais evidente quando se observa a combinação única de recursos naturais, energia renovável e capacidade agrícola disponível em território brasileiro. “A América Latina acessa menos de 1% desse capital”, reforçou.
Inovação como nova política industrial
Os especialistas destacaram que converter potencial natural em liderança econômica depende menos dos recursos em si e mais da habilidade de transformá-los em ciência e tecnologia. Júlia lembrou que o Vale do Silício só ganhou protagonismo ao aproximar universidades, pesquisadores e empresas — elo que o Brasil ainda não consolidou.
Na leitura do Editorial S&N, essa constatação sugere um vácuo estratégico: enquanto a pauta ambiental domina o debate público, a dimensão industrial da economia climática continua relegada a segundo plano nas políticas de desenvolvimento. Órgãos de fomento, fundos de pensão e grandes corporações nacionais poderiam preencher essa lacuna, catalisando projetos que hoje disputam capital no exterior.
“Clima vai transformar a nossa vida do mesmo jeito que tecnologia transformou”
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Zé Gustavo comparou a transição climática à revolução digital, que gerou companhias capazes de redefinir setores inteiros. Para ele, startups desempenham papel central ao testar soluções com rapidez, enquanto grandes empresas precisam acelerar adaptações para não perder relevância.
Futuras líderes estão nascendo agora
O sentimento de urgência permeou todo o debate. Na visão dos convidados, a pergunta deixou de ser se haverá uma economia de baixo carbono — a questão passa a ser quais nações formarão as empresas que conduzirão esse mercado nas próximas décadas. A mensagem aos investidores: as futuras “Microsofts do clima” podem estar no estágio inicial de captação.
Para Júlia, o Brasil vive uma contradição: é visto pelos estrangeiros como terreno fértil para inovação climática, mas grande parte do capital doméstico ainda ignora o setor. “Fundos de fora estão investindo em empresas brasileiras. Já empresas brasileiras não estão investindo em empresas brasileiras”, pontuou.
Transformar essa percepção em ganhos concretos exigirá, segundo os entrevistados, uma estratégia coordenada que una pesquisa, capital empreendedor, incentivos públicos e políticas industriais. Caso contrário, o País corre o risco de repetir o modelo histórico de exportar commodities e importar tecnologia de alto valor agregado.
Para a S&N, esse movimento indica que a disputa econômica do século XXI já começou — e passa menos pela posse de recursos naturais e mais pela capacidade de transformá-los em inovação escalável. Se aproveitar o momento, o Brasil pode deixar de ser apenas potência ambiental e se tornar protagonista da economia climática global. Caso contrário, permanecerá como fornecedor de matérias-primas enquanto outros capturam o grosso da geração de valor.
Editorial S&N


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