Carlos Bolsonaro afirmou que a militarização foi “um dos maiores erros” da administração do ex-presidente Jair Bolsonaro. A avaliação, feita em 26 de junho durante agenda de pré-campanha em Timbó (SC), veio a público neste sábado, 11, após divulgação de vídeo nas redes sociais.
O reconhecimento, inédito no núcleo bolsonarista, ecoa num momento em que parte da direita tenta reposicionar sua narrativa sobre gestão pública. Para a redação da S&N, essa inflexão pode indicar tentativa de diferenciar futuras candidaturas da imagem associada às Forças Armadas — um movimento que, caso avance, tende a redesenhar alianças políticas em 2026. Esse possível reposicionamento ajuda a explicar por que o tema desperta atenção de leitores da Perspectiva S&N.
Declaração em Santa Catarina
No encontro com apoiadores, o vereador do Rio de Janeiro e pré-candidato ao Senado por Santa Catarina argumentou que o pai recorreu a militares por “falta de estrutura” política ao chegar ao Planalto:
“Não tinha ninguém que ele conhecia que não fosse das Forças Armadas.”
Carlos também disse ter “certeza absoluta” de que o irmão, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), não repetirá o modelo caso avance para cargos executivos. Na visão do vereador, equipes futuras deverão priorizar “pessoas realmente técnicas” em vez de “positivistas como eram os militares”.
Expansão de militares em cargos civis
As falas coincidem com números divulgados pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) em 2022. O estudo identificou que o total de militares em funções civis do governo federal quase triplicou entre 2013 e 2021, passando de 370 para 1.085 — avanço de 193%.
A aceleração se deu sobretudo nos cargos de Direção e Assessoramento Superior (DAS) e Função Comissionada do Poder Executivo (FCPE). Em 2019, primeiro ano de Jair Bolsonaro na Presidência, esses postos saltaram de 381 para 623 e alcançaram 742 em 2021.
- Ministério da Economia: 1 militar em 2013 para 84 em 2021 (aumento superior a 8.000%).
- Ministério da Saúde: 7 para 40 militares no mesmo intervalo (alta de 471%).
- Ministério do Meio Ambiente: 1 para 21 militares.
Os números explicam por que a militarização se tornou alvo recorrente de críticas durante a pandemia e em temas ambientais. A declaração de Carlos Bolsonaro, portanto, dialoga diretamente com avaliações de desempenho dessas pastas.
O que muda na estratégia bolsonarista
Para a S&N, a autocrítica pública sugere dois movimentos. Primeiro, reconhecimento tácito de que a vinculação a militares pode ter custado apoio em setores que defendem gestão mais técnica. Segundo, sinalização de que o clã Bolsonaro pretende ampliar pontes com especialistas civis, buscando reduzir resistência de eleitores moderados.
Na prática, redefinir alianças fora da caserna pode influenciar tanto escolhas de ministérios num eventual futuro governo quanto a composição de palanques estaduais. Resta saber se a retórica se converterá em ação concreta — e se integrantes das Forças Armadas, historicamente próximos ao grupo, aceitarão recuar para funções estritamente institucionais.
Por ora, a fala de Carlos Bolsonaro coloca o tema militarização do governo Bolsonaro novamente no centro do debate e oferece termômetro sobre a capacidade do ex-presidente e de seus herdeiros políticos de ajustar estratégias após quatro anos de experiência no Poder Executivo.


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