PJM Interconnection, operadora da maior rede elétrica dos Estados Unidos, confirmou que o rápido avanço de centros de dados de inteligência artificial fará as tarifas de energia subir mais uma vez: o leilão anual de capacidade da empresa atingiu o teto regulatório de US$ 325 por megawatt-dia, projetando custos adicionais de US$ 6,3 bilhões para os consumidores nos próximos três anos.
O mecanismo de leilão, que trava preço e oferta de geração com três anos de antecedência, estabelece parte das tarifas cobradas dos 67 milhões de usuários espalhados por 13 estados e pelo Distrito de Colúmbia. Desta vez, a PJM ficou 6,8 GW aquém da meta mínima de confiabilidade—um sinal de alerta para picos de demanda em ondas de calor, quando o risco de apagões cresce.
Segundo a consultoria independente Monitoring Analytics, responsável por fiscalizar o mercado da PJM, alcançar o preço-teto resultará em uma despesa extra equivalente a mais de R$ 34 bilhões. Para o leitor que acompanha a editoria de Economia & Finanças da S&N, chama atenção a velocidade com que a conta se acumula: desde 2024, os leilões já embutiram US$ 29 bilhões em aumento tarifário relacionado a centros de dados.
Centros de dados crescem até três vezes mais rápido que a geração
Em comunicado prévio ao leilão, a PJM apontou os centros de dados—novos ou em expansão—como “principal vetor” da escalada de carga. A construção desses complexos, normalmente ancorados por serviços de IA generativa, leva de dois a três anos; já projetos de geração, sobretudo renováveis e linhas de transmissão, costumam exigir o dobro desse prazo. O descompasso ajuda a explicar por que a oferta não acompanha a explosão na procura.
“Esses resultados mostram que a demanda avança mais rápido que o suprimento”, afirmou o CEO da PJM, David Mills. No leilão de dezembro de 2025, esse descompasso custou US$ 6,8 bilhões, valor que representou 40% de toda a fatura de capacidade naquele ciclo.
Impacto vai além da PJM: pedidos de reajuste somam US$ 18,6 bi
O efeito-contágio aparece em outras redes. A Powerlines, ONG dedicada a monitorar tarifas, calcula que concessionárias em todo o país solicitaram US$ 18,6 bilhões em aumentos de luz e gás apenas no primeiro semestre de 2026. Entre os pleitos, destaca-se a Oncor, do Texas, que requereu US$ 1,2 bilhão para bancar um plano de R$ 240 bilhões em transmissão — grande parte voltada a atender ao setor de óleo e gás e, novamente, a centros de dados no Permian Basin.
Do ponto de vista regulatório, o teto de US$ 325 por megawatt-dia funcionou como anteparo temporário; nada impede que valores ainda maiores ocorram, caso o limite seja revisto. A PJM, por ora, argumenta que o sinal de preço estimula novos projetos de geração. Já grupos ambientais pressionam por processos de conexão à rede menos burocráticos, capazes de destravar parques solares e eólicos dentro da janela de três anos.
Enquanto o impasse persiste, consumidores residenciais e empresariais enfrentam não apenas contas mais salgadas, mas também a incerteza sobre a confiabilidade do sistema em eventos climáticos extremos. Ao mesmo tempo, gigantes de tecnologia continuam anunciando campus de IA que, sozinhos, exigem centenas de megawatts — o suficiente para abastecer uma cidade de médio porte.
Para a S&N, esse movimento indica uma nova frente de disputa competitiva: regiões capazes de oferecer energia abundante e barata tendem a atrair investimentos em IA, relegando áreas com infraestrutura saturada a encarar custos crescentes. O desenlace desse xadrez energético definirá onde — e a que preço — se instalará a próxima onda de inovação digital.
A Supervisão do Mercado da PJM publicará um relatório mais detalhado nas próximas semanas. Até lá, especialistas aguardam sinais de que programas federais de incentivo a renováveis e projetos de armazenamento em grande escala consigam aliviar a pressão antes que a conta de luz volte a subir.


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