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Como transformar desacordos em conflito produtivo no trabalho

Resumo

Amanda Ripley, autora do livro “High Conflict: Why We Get Trapped and How We Get Out”, sustenta que trocar o impulso de vencer um debate pela...

Amanda Ripley, autora do livro “High Conflict: Why We Get Trapped and How We Get Out”, sustenta que trocar o impulso de vencer um debate pela disposição de aprender é o caminho mais curto para um conflito produtivo.

O conceito ganhou vida para o colunista Jeff Haden quando um inspetor da prefeitura reprovou a instalação de uma tubulação de gás em um imóvel que ele administra. Haden conhecia o código de obras e já se preparava para contestar. Em vez de confrontar o fiscal, recorreu à técnica de Ripley: “Eu não sabia disso. Você pode me mostrar o que está errado?”. A troca de tom desarmou o cenário de combate e abriu espaço para explicações.

Segundo pesquisa publicada na revista Cognitive Science, participantes que abordaram um tema de forma cooperativa mostraram-se mais dispostos a rever seus conceitos do que aqueles em interação competitiva.

“Quando as pessoas estão em argumentos cooperativos, veem a verdade como mais subjetiva”

, escreveram os autores do estudo.

Por que o conflito produtivo funciona

Ao sinalizar curiosidade genuína, o interlocutor poupa o outro da sensação de ter de se defender — reação automática quando alguém percebe o ambiente hostil. Para a S&N, essa mudança de mentalidade indica uma migração do jogo de soma zero para a lógica de cocriação. Quando o objetivo coletivo passa a ser compreender, não ganhar, a conversa tende a produzir ideias melhores e relações mais sólidas.

Haden confirma. Depois de detalhar o raciocínio, o inspetor admitiu que a instalação estava conforme o código, embora preferisse outra solução por facilidade de manutenção. Resultado: a obra foi aprovada, e o proprietário encerrou a visita com uma recomendação gratuita para próximos projetos. Ninguém saiu derrotado.

Sete iniciadores de frase que abrem portas

Ripley lista expressões que, usadas no início do diálogo, sinalizam abertura e leve incerteza — condição necessária para que o outro lado se sinta autorizado a explorar possibilidades.

  • “É interessante você dizer isso. Eu tinha certeza de que…”
  • “Será que…”
  • “Posso estar enganado, mas…”
  • “Que curioso! Tive uma reação diferente…”
  • “Estou curioso. Como você chegou a essa conclusão?”
  • “Fico um pouco receoso em dizer, porém…”
  • “De um lado, entendo seu ponto. De outro lado…”

A recomendação central é adicionar um grau de incerteza à entrega. Para a liderança, o cuidado se multiplica. Quando o chefe reage a uma sugestão contrária ao método habitual com “Explique por que isso faz sentido”, pode soar como desafio hierárquico. Troque para “Nunca pensei por esse ângulo; pode me mostrar?” e a proposta vira assunto, não embate pessoal. Mesmo que a sugestão seja recusada, o colaborador sairá com a sensação de ter sido ouvido.

Aplicação prática no dia a dia corporativo

1. Pausa estratégica: antes de responder, respire e lembre que o objetivo é entender, não refutar.
2. Tom de voz: adote ritmo calmo e volume regular, reduzindo o risco de oponente defensivo.
3. Pergunta aberta: use um dos sete iniciadores para convidar a outra parte a detalhar ideias.
4. Espelhamento: parafraseie o que ouviu — sinal de escuta ativa.
5. Agradecimento: reconheça o tempo e a explicação alheia, mesmo que discorde do conteúdo.
6. Decisão transparente: se precisar negar a ideia, explique os critérios utilizados.
7. Registro de aprendizados: ao final, destaque pontos de convergência e próximos passos.

Na leitura do Editorial S&N, a técnica de Ripley é particularmente valiosa em culturas corporativas que estimulam inovação. Startups e equipes ágeis dependem de feedback rápido; se cada sugestão vira duelo, o fluxo de ideias se paralisa. Transformar a discordância em conflito produtivo mantém a criatividade em movimento e fortalece a confiança interna.

Haden concluiu sua história com um aperto de mãos e uma lição: “A conversa poderia ter virado discussão e ninguém teria ganhado”. Ele saiu com a aprovação da obra, o inspetor saiu com o sentimento de ter sido respeitado — e ambos adicionaram conhecimento para o futuro.

Ou, como resumiu o estudo em Cognitive Science, o mindset cooperativo redefine o que cada parte entende por verdade. Ao trocar a necessidade de estar certo pelo desejo de aprender, todos avançam.

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