Eye-in-a-Care-Box (ECaBox), sistema de perfusão criado no Centre for Genomic Regulation (BIST, Barcelona), demonstrou capacidade de preservar globos oculares recém-retirados, reacendendo a perspectiva de um futuro transplante de olho humano funcional.
O protótipo, descrito em artigo pré-publicado ainda sem revisão por pares, envia um fluido rico em oxigênio pela artéria central que normalmente irriga o globo ocular. Esse processo reduz a degradação dos tecidos e mantém a retina ativa, segundo os autores. Pesquisadores veem na inovação um passo relevante para a ciência médica e para a evolução tecnológica aplicada à saúde.
Perfusão amplia a vida útil do órgão
A perfusão já é usada para conservar rins, fígados e corações fora do corpo. No caso do ECaBox, o princípio se repete: oxigênio e nutrientes circulam continuamente, retardando danos celulares que começam assim que o olho é removido. Sem esse suporte, tentativas anteriores de transplante resultaram em perda rápida de função visual.
Shannon Tessier, pesquisadora do Massachusetts General Hospital que não participou do estudo, destaca a relevância dos resultados:
“É muito interessante… Isso poderia ser uma nova fronteira para a preservação da retina.”
Testes com olhos de porcos e humanos
Antes de trabalhar com material humano, a equipe avaliou o dispositivo em olhos de porcos e obteve boa preservação da retina. Em seguida, coletou 12 globos de seis doadores falecidos. De cada par, um olho foi colocado no ECaBox e o outro permaneceu sem tratamento para controle. A comparação reforçou os primeiros achados: os olhos perfundidos mantiveram melhor integridade dos tecidos e a capacidade de transmitir sinais elétricos.
Os autores defendem que o equipamento poderá reduzir o uso de animais vivos em pesquisa ocular e servir como plataforma para testar terapias regenerativas ou novas tecnologias de visão artificial.
Próximos passos rumo ao transplante de olho
Embora a cirurgia para substituir completamente um olho humano ainda represente desafio técnico — como demonstrado pelo transplante parcial realizado pela NYU Langone em 2023, no qual o paciente recuperou a estética facial, mas não a visão — o ECaBox amplia as possibilidades. Em nota no próprio estudo, a equipe relata planos de desenvolver uma versão portátil para salas cirúrgicas, a fim de conectar o aparelho ao olho doado minutos após a retirada e, assim, minimizar perdas funcionais.
Tessier observa que apenas um procedimento clínico definitivo poderá comprovar se globos tratados pelo dispositivo responderão melhor que aqueles preservados por métodos convencionais:
“Enquanto não tiverem sido transplantados, não saberemos se olhos tratados no ECaBox poderão ter um desempenho melhor.”
Até lá, os pesquisadores pretendem ampliar a base de dados com novos doadores, aperfeiçoar a composição do fluido de perfusão e monitorar a capacidade de geração de impulsos elétricos ao longo do tempo. Se bem-sucedida, a estratégia pode abrir caminho para que cirurgias de transplante de olho deixem de ser apenas experimentais e se tornem opção concreta para vítimas de traumas ou doenças degenerativas severas.


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