Duchy of Cornwall, o conjunto de propriedades rurais que há quase sete séculos financia o herdeiro do trono britânico, traçou um caminho para zerar a emissão líquida de gases de efeito estufa até 2032.
Segundo reportagem da revista britânica Edie, o executivo responsável pelo pilar de propósito do Ducado, David Cope, detalhou como a organização quer transformar 52 mil hectares distribuídos pela Inglaterra e País de Gales em um laboratório de gestão de terras resiliente — sempre com a comunidade local no centro das decisões. O anúncio reforça a onda de compromissos climáticos de grandes proprietários de terras, tema recorrente na editoria de Sustentabilidade da S&N.
Compromisso antecipado com o net-zero
Criado em 1337 pelo rei Eduardo III, o Duchy of Cornwall opera hoje como um fundo imobiliário que gera renda para o Príncipe de Gales. A meta de neutralidade de carbono em 2032 antecipa em 18 anos o prazo fixado pelo Reino Unido para toda a economia (2050). De acordo com Cope, o plano contempla emissões de Escopos 1, 2 e 3, englobando desde uso de fertilizantes e combustível agrícola até o consumo de energia em vilarejos administrados pelo Ducado.
Para chegar lá, estão previstas três frentes principais:
- Conversão gradual de sistemas agrícolas convencionais para práticas regenerativas;
- Reflorestamento de áreas pouco produtivas, com seleção de espécies nativas que favoreçam a biodiversidade;
- Implantação de energia renovável em residências e edifícios históricos sob gestão do Ducado.
Gestão de terras centrada nas pessoas
O ponto-chave, destaca a Edie, é a abordagem “people-first”. Cope explicou que cada mudança no manejo será negociada com arrendatários, moradores e autoridades locais, buscando benefícios socioeconômicos imediatos — como redução da conta de energia ou novos postos de trabalho em manutenção de florestas.
Em vez de impor metas top-down, o Ducado está criando fóruns comunitários para discutir indicadores de sucesso que vão além de carbono, entre eles saúde do solo, qualidade da água e bem-estar dos habitantes. “Quando o ganho ambiental se traduz em prosperidade local, a transição deixa de ser um sacrifício”, resumiu o executivo.
O que o movimento sinaliza para o Brasil
Na leitura do Editorial S&N, esse modelo reforça uma tendência de responsabilização completa da cadeia — do trator ao prato — e pode inspirar gestores de fazendas brasileiras, especialmente aqueles que precisam conciliar produção em larga escala, conservação de biomas e pressão regulatória crescente. Embora as realidades fundiárias sejam distintas, o princípio de engajar quem vive da terra antes de qualquer transformação climática é universal e pode reduzir conflitos em projetos de restauração ou conversão agrícola no país.
Outro ponto relevante é a ênfase em contabilizar emissões de Escopo 3, algo que empresas do agronegócio brasileiro começam a enfrentar com exigências de importadores europeus. A experiência britânica sugere que medir, reportar e, sobretudo, co-criar soluções com a comunidade não só protege a reputação, mas também agrega valor econômico de longo prazo.


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