Nike viu uma investigação federal sobre seus programas de diversidade, equidade e inclusão (DEI) ganhar novos contornos depois que a Equal Employment Opportunity Commission (EEOC) anulou um acordo confidencial logo após a posse de Donald Trump, em 2025.
O processo, aberto por meio de uma “charge” da comissária e atual presidente da EEOC, Andrea Lucas, foge ao padrão: normalmente a agência age a partir de queixas de funcionários. A intervenção direta de Lucas reflete a mudança de prioridades do órgão, agora mais atento a supostas “discriminações reversas”, como a alegação de favorecimento de pessoas não brancas.
No início de janeiro de 2025, Nike assinou um termo para encerrar o caso de forma sigilosa. Dias depois, com Trump de volta à Casa Branca, o documento foi retirado e a EEOC ampliou radicalmente seu pedido de informações, exigindo desde descrições de cargos e dados salariais até critérios de demissões e remuneração executiva. A companhia resistiu e recebeu uma intimação; diante da recusa, a agência recorreu à Justiça — movimento classificado por especialistas como raro e de “escalada surpreendente”. Confira mais análises em Negócios & Inovação.
Da mesa de negociação ao tribunal
Em março de 2025, a EEOC foi ao tribunal para executar a intimação. Segundo a ex-conselheira-geral do órgão Karla Gilbride, a medida só acontece quando o empregador “não colabora ou não fornece dados considerados suficientes”. “Na minha experiência, isso é bastante incomum”, afirmou ela ao Fast Company.
Nike chamou a ação de “incomum e inesperada”. Nos autos, a empresa citou a semelhança entre a investigação e a reclamação apresentada em 2024 pelo America First Legal — organização fundada pelo ex-assessor de Trump Stephen Miller — que acusa a companhia de discriminação contra homens brancos.
Agenda moldada pelas ordens executivas de Trump
A guinada da EEOC acompanha decretos presidenciais que restringem iniciativas de diversidade no serviço público e, por consequência, pressionam o setor privado. “Este é um ataque frontal a esforços de DEI pouco definidos”, avaliou a ex-comissária Chai Feldblum. Para ela, apenas tornar pública a intimação contra a Nike já cumpre o objetivo político de inibir programas semelhantes em outras empresas.
Desde então, a agência fechou acordos públicos em casos parecidos. Um deles envolveu uma afiliada da Planned Parenthood; outro, a Universidade Columbia, resultou em pagamento de US$ 21 milhões — o maior acordo divulgado pela EEOC em quase duas décadas.
O que está em jogo para o mercado
Para a S&N, esse movimento indica que grandes corporações podem rever programas de diversidade antes mesmo de qualquer sentença, temendo exposição ou litígios prolongados. Se o processo da Nike chegar à Suprema Corte, como aventado por analistas jurídicos, as regras que sustentam iniciativas de inclusão no ambiente de trabalho poderão ser redefinidas em escala nacional.
No curto prazo, porém, o simples fato de a EEOC ter levado a multinacional aos tribunais já serve de alerta. Companhias que investem em metas raciais ou de gênero passaram a monitorar de perto o caso, ponderando ajustes para evitar que suas políticas internas sejam rotuladas como “preferências ilícitas”.
A investigação segue em curso. Até o momento, Nike e EEOC não comentaram publicamente os próximos passos.


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