Washington quer que o Brasil elimine tarifas de importação sobre bens industriais, químicos e aeroespaciais como condição para avançar num novo acordo comercial, segundo documentos vazados em 18/07/2026. O cardápio, atribuído ao Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR), repete os termos recentemente firmados com Argentina, Equador e Guatemala nos chamados Acordos Recíprocos de Comércio.
A divulgação do material, confirmada pela Folha de S.Paulo, indica que as propostas norte-americanas foram consideradas “inegociáveis” por interlocutores brasileiros. Entre os pontos mais sensíveis está a exigência de tarifas zero para segmentos estratégicos da indústria nacional, enquanto as concessões oferecidas por Washington se limitam a reduções pontuais em itens agrícolas já competitivos no mercado dos EUA.
Para a S&N, esse movimento indica que o governo dos Estados Unidos testa o apetite do Brasil por uma abertura abrupta em setores de alta tecnologia, sem oferecer contrapartida equivalente em áreas de interesse prioritário brasileiro. A assimetria lembra as rodadas conduzidas pelo USTR com outros países latino-americanos, estratégia vista por analistas como tentativa de estabelecer padrões bilaterais paralelos às normas multilaterais.
Pressão por tarifas zero afeta indústria sensível
O trecho vazado detalha a solicitação para que o Brasil zere, em curto prazo, alíquotas incidentes sobre produtos aeroespaciais e químicos, além de equipamentos industriais. Empresários desses ramos temem que a medida amplie a exposição à concorrência estrangeira antes de ganhos de escala ou de produtividade decorrentes da nova política industrial brasileira.
No documento, não há referência a contrapartidas tarifárias proporcionais por parte de Washington. O que se vê é a manutenção do enfoque já aplicado nos acordos fechados com Argentina, Equador e Guatemala, onde os EUA preservaram margem de manobra em setores sensíveis e priorizaram reduções em nichos de menor impacto doméstico.
Segundo negociadores ouvidos pela reportagem original, Brasília considera fundamental manter poder de fogo na definição do ritmo de abertura comercial. O país historicamente protege segmentos como bens de capital e química fina para sustentar a geração de empregos de maior qualificação. O receio é de que aceitar a proposta norte-americana crie dependência tecnológica, fragilizando cadeias de valor locais.
Levantamento da S&N sobre dados públicos da Organização Mundial do Comércio (OMC) mostra que a tarifa média aplicada pelo Brasil a bens manufaturados supera 10%, enquanto a dos EUA fica abaixo de 3%. A diferença reforça o peso relativo das concessões exigidas de cada parte. Se Brasília zerar os tributos solicitados, abrirá mão de instrumento de política industrial sem que Washington precise fazer gesto equivalente.
Modelo de acordos recíprocos desperta ceticismo
Os Acordos Recíprocos de Comércio, modelo usado pelo USTR na região, avançam por meio de compromissos bilaterais específicos, fora do guarda-chuva de negociações mais amplas como as da OMC ou do Mercosul. Críticos enxergam nos instrumentos uma forma de driblar resistências internas do Congresso norte-americano a pactos multilaterais extensos, ao mesmo tempo em que criam precedentes que podem ser usados em negociações futuras.
Na leitura do Editorial S&N, a tática força países emergentes a aceitar padrões regulatórios e tarifários alinhados a Washington, sob pena de ficarem isolados. O dilema é particularmente delicado para o Brasil, que equilibra interesses do bloco sul-americano com a necessidade de ampliar o acesso a mercados e investimentos externos.
Interlocutores próximos às tratativas avaliam que o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços ainda não definiu calendário para retomar as conversas. O Planalto teme que um aceno precipitado possa gerar atrito político interno, sobretudo com setores industriais e entidades trabalhistas que cobram cautela na abertura de mercado.
Um negociador brasileiro afirmou, em caráter reservado, que “as condições apresentadas não atendem aos objetivos nacionais de desenvolvimento” — trecho reproduzido pela Folha. O governo também ressalta que eventuais alterações tarifárias precisam respeitar compromissos já assumidos no Mercosul, o que exige coordenação com Argentina, Uruguai e Paraguai.
Até o momento, o USTR não comentou oficialmente o vazamento. A Embaixada dos Estados Unidos em Brasília limitou-se a dizer que “os diálogos permanecem construtivos”. Já a Confederação Nacional da Indústria (CNI) reiterou a importância de acordos que proporcionem ganhos mútuos, mas alertou para a necessidade de resguardar “áreas sensíveis da economia brasileira”.
Em economia e finanças, movimentos desse tipo costumam gerar expectativa nos mercados de câmbio e de capitais, ainda que a prudência marque a postura de investidores até sinais mais claros de avanço. Para empresas exportadoras brasileiras, a perspectiva de acesso facilitado a um dos maiores mercados do mundo aparecerá como oportunidade — desde que as regras não comprometam a competitividade doméstica.
Os próximos passos devem incluir consultas formais a setores produtivos e possível alinhamento entre ministérios antes de uma nova rodada de negociações. Se o Brasil recusar o pacote tal como está, abrirá espaço para revisões. Caso contrário, corre o risco de ficar sem acordo e, de quebra, ver vizinhos latino-americanos avançarem em condições já aceitas em Buenos Aires, Quito e Cidade da Guatemala.
A S&N seguirá acompanhando, passo a passo, os desdobramentos dessa disputa tarifária que coloca em jogo não apenas o saldo da balança comercial, mas também a estratégia de desenvolvimento industrial do país.


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