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Fumaça de incêndios no Canadá amplia risco de saúde a milhares de km

Resumo

O Canadá registra neste momento mais de 850 incêndios florestais ativos, e a densa fumaça gerada por essas queimadas já cruzou fronteiras: cobriu...

O Canadá registra neste momento mais de 850 incêndios florestais ativos, e a densa fumaça gerada por essas queimadas já cruzou fronteiras: cobriu Chicago, Nova York e, segundo projeções meteorológicas, deve alcançar a Europa na próxima semana. O fenômeno reacende o alerta para os efeitos da fumaça de incêndios florestais sobre a saúde humana, mesmo a longas distâncias.

As partículas microscópicas PM2.5 presentes na fumaça, entre 20 e 30 vezes menores que um fio de cabelo, penetram facilmente nos pulmões e na corrente sanguínea. Estudos associam essa exposição a redução de função pulmonar e maior risco de infarto e AVC. Nos Estados Unidos, uma análise sobre a passagem da fumaça canadense por Baltimore em 2023 indicou aumento de 18% nos atendimentos por problemas cardíacos e respiratórios. Casos semelhantes foram registrados na Califórnia durante a temporada de fogo de 2020, quando médicos do Vale de São Francisco observaram elevação de 43% em eventos cardiovasculares.

Pesquisas de longo prazo ainda são escassas, mas indícios começam a aparecer. Trabalho publicado em 2025 mostrou que o risco de arritmia e DPOC se manteve alto por pelo menos três meses após a dissipação da fumaça. Em Montana, moradores expostos a seis semanas de ar contaminado manifestaram queda de função pulmonar um ano depois, quadro que persistiu no biênio observado. Para a redação da S&N, esses dados reforçam a urgência de políticas públicas que antecipem os impactos das queimadas sobre centros urbanos distantes.

Por que a fumaça se torna ainda mais perigosa nas cidades

Quando a fumaça percorre centenas de quilômetros e encontra poluentes típicos de áreas urbanas, forma-se um novo problema: o ozônio de baixo nível. A interação entre material particulado e emissões de veículos ou usinas pode elevar a concentração desse gás dias depois de o foco de incêndio diminuir, agravando crises de asma e outros males respiratórios.

“Not only are we having these larger populations exposed [to wildfire smoke], they’re larger urban populations that are being exposed—where there are a lot of underlying exposures from traffic and industry,”

ressalta Jennifer Stowell, pesquisadora do Center for Climate and Health da Universidade de Boston.

Outro fator crítico é a “oxidação” das partículas ao longo do tempo. Estudo europeu concluiu que a toxicidade do material particulado dobrava cinco horas após a emissão e quadruplicava com exposição ainda maior à atmosfera. A isso se soma o efeito de ilhas de calor urbanas, que prende a poluição próxima ao solo por mais tempo.

Incêndios mais frequentes, ciência em busca de respostas

A área queimada anualmente no Canadá dobrou em relação à década de 1970. Em 2023, o território devastado equivalia ao tamanho da Inglaterra. No ano seguinte, 5,3 milhões de hectares voltaram a arder, e 2025 tornou-se o segundo pior registro histórico. Esse novo padrão de fumaça prolongada levanta dúvidas sobre impactos sanitários em horizontes de cinco ou dez anos — lacuna que pesquisadores correm para preencher.

Estudos emergentes também buscam decifrar a composição química do PM2.5. A queima de árvores produz um coquetel diferente daquele liberado quando casas cheias de plásticos e eletrônicos pegam fogo. Novos modelos atmosféricos começam a mapear essas variações, mas ainda faltam monitores de qualidade do ar e verba para acompanhar populações antes, durante e depois dos eventos, observa Stowell.

Como se proteger da fumaça de incêndios florestais

A fumaça pode ser invisível ao olfato, mas perigosa. Aplicativos meteorológicos e plataformas dedicadas, como IQAir e PurpleAir, exibem o índice de qualidade do ar (AQI); valores acima de 150 indicam risco elevado. Crianças, gestantes, idosos e pessoas com doenças crônicas são mais vulneráveis, porém a recomendação de reduzir atividades ao ar livre vale para todos.

“Going to cause you to breathe harder and heavier, and you’re increasing your exposure because you’re just bringing more of that smoky air into your lungs,”

alerta Stowell sobre exercícios em dias críticos.

Em casa, o ideal é manter o ar-condicionado em modo de recirculação e utilizar purificadores. Máscaras N95 e medicação de uso contínuo — no caso de asma, por exemplo — devem estar à mão. Mary Maldarelli, médica do University of Maryland Medical Center, estuda intervenções simples e de baixo custo para ampliar a proteção da população.

“Something that I want to study in the future are interventions that would be high efficacy, but probably low cost or low effort to help protect other people,”

conta a pesquisadora, citando distribuição de máscaras e alertas antecipados como medidas viáveis.

Na leitura do Editorial S&N, a recorrência de verões enfumaçados coloca a qualidade do ar entre os grandes temas de infraestrutura urbana. Da expansão de sensores comunitários à revisão de planos de emergência, a capacidade de mitigar danos à saúde será teste decisivo para governos locais e empresas preocupadas com bem-estar de colaboradores e moradores.

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