Marco Rubio, secretário de Estado dos Estados Unidos, afirmou que o país redesenhará sua política externa de segurança para concentrar os esforços antiterrorismo no “terrorismo de extrema-esquerda”. O anúncio foi feito nesta quinta-feira, em Washington, durante conferência que reuniu autoridades de mais de 60 nações.
A mudança de foco amplia a prioridade já declarada pelo presidente Donald Trump de enfrentar grupos de esquerda, sobretudo após o assassinato do ativista conservador Charlie Kirk em 2025. Segundo Rubio, a violência praticada por esses movimentos tornou-se um “ponto cego” do sistema internacional de segurança. O reposicionamento, entretanto, provocou reação imediata de congressistas democratas, que veem risco de desvio de recursos e de politização da pauta. Mais detalhes sobre tendências de política global podem ser encontrados na seção Tendências da S&N.
A conferência é considerada o passo mais ambicioso da administração Trump para internacionalizar a nova abordagem. Em sua fala de abertura, Rubio declarou que a ameaça do extremismo islâmico foi “severamente reduzida” graças à cooperação multilateral, enquanto a escalada da violência de esquerda estaria sendo subestimada por governos e centros de pesquisa.
“Podemos e devemos identificar e mapear essa ameaça e reconstruir nossa estrutura de combate ao terrorismo para derrotá-la”, disse o secretário.
Terrorismo de extrema-esquerda entra no radar oficial
Dando suporte à nova orientação, Washington já classificou quatro organizações europeias — Antifa Ost, Federação Anarquista Informal/Frente Revolucionária Internacional, Justiça Proletária Armada e Autodefesa de Classe Revolucionária — como Organizações Terroristas Estrangeiras. As designações permitem oferecer recompensas de até US$ 10 milhões por informações sobre financiamento dessas redes.
Scott Bessent, secretário do Tesouro, informou que a pasta expandirá investigações sobre o uso de entidades beneficentes e ONGs para mascarar doações estrangeiras destinadas à violência. Ao mesmo tempo, o Departamento de Estado prepara, ao lado da Alemanha, um segundo workshop com forças de segurança para acelerar cooperação contra grupos de extrema-esquerda.
Apesar do plano, onze parlamentares democratas enviaram carta a Rubio contestando a base empírica da estratégia. O documento, assinado pelo deputado Gregory Meeks, líder democrata na Comissão de Relações Exteriores da Câmara, e por William Keating, que preside a subcomissão para a Europa, classifica a diretriz antiterror como “politicamente partidária” e alerta para o risco de criminalização de protestos legítimos.
“Instamos veementemente o Departamento a voltar seu foco para um conjunto de missões sérias, apolíticas e baseadas em dados”, escreveram os congressistas.
Na mesma conferência, Stephen Miller, vice-chefe de gabinete da Casa Branca, adotou tom duro: descreveu militantes de esquerda como movidos por “inveja e ódio” e ironizou a aparência de manifestantes antifa. Rubio, por sua vez, citou os distúrbios de 2020 que se seguiram à morte de George Floyd como exemplo de violência negligenciada e afirmou, sem apresentar provas, que grupos de esquerda estariam em contato com representantes iranianos e cubanos.
Para a S&N, esse realinhamento indica uma guinada inédita na doutrina antiterror dos EUA desde o 11 de Setembro. Ao deslocar o centro de gravidade do Oriente Médio para redes radicais de matriz ideológica ocidental, Washington pode redefinir tanto a partilha de inteligência com aliados quanto o destino de verbas de contraterrorismo, hoje estimadas em bilhões de dólares. A amplitude — e a legitimidade — dessa mudança dependerá da publicação de dados capazes de sustentar o diagnóstico oficial de ameaça.
Se confirmado, o novo eixo terá impacto não apenas sobre serviços de segurança, mas também sobre fundações, partidos e movimentos sociais que atuam em trânsito internacional. Legisladores, acadêmicos e o setor de compliance acompanharão de perto a expansão da lista de entidades banidas, atentos a potenciais efeitos sobre a liberdade de associação e sobre o debate público nos Estados Unidos e na Europa.
Editorial S&N acompanha os próximos passos do Departamento de Estado e os desdobramentos no Congresso norte-americano.


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