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Homens recorrem mais à IA para negociar salário, aponta estudo

Resumo

IA na negociação salarial ganhou um novo retrato estatístico: segundo reportagem da Fast Company, 63% dos homens que trabalham em tempo integral já...

IA na negociação salarial ganhou um novo retrato estatístico: segundo reportagem da Fast Company, 63% dos homens que trabalham em tempo integral já recorreram a ferramentas de inteligência artificial para obter aconselhamento sobre remuneração, percentual que cai para 42% entre as mulheres.

O dado integra pesquisa conduzida pela startup Ruth, especializada em estratégia de carreira via IA, em parceria com o instituto The Harris Poll. Foram ouvidos 2.131 trabalhadores nos Estados Unidos, e o recorte de gênero expõe um comportamento que pode influenciar rumos no mercado de trabalho global. Em linha com discussões sobre diversidade que a categoria Negócios & Inovação acompanha, o estudo alerta para o risco de a tecnologia reforçar distorções salariais já consolidadas.

Uso diferenciado e confiança desigual

Não é de hoje que homens adotam IA com mais frequência. Dois anos atrás, uma pesquisa do Pew Research Center registrava vantagem de 11 pontos percentuais para eles no uso de chatbots. O mais recente levantamento do Pew indica que essa lacuna geral diminuiu, mas ainda persiste quando a conversa é trabalho: outro estudo, da Lean In, apontou que homens utilizam IA diariamente no escritório em proporção maior que as colegas.

Quando o tema é negociar salário ou aumento, a disparidade aumenta. Conforme o relatório de Ruth, 59% dos homens dizem que consultariam IA para definir o valor a pedir em uma negociação. Entre as mulheres, o número cai para 44%. A confiança na ferramenta também varia: 57% dos homens afirmam acreditar no conselho de um chatbot tanto quanto no de um ser humano, enquanto apenas 43% das mulheres compartilham a mesma opinião.

Efeito potencial sobre a disparidade de gênero

Para a S&N, esse padrão de adoção pode aprofundar a diferença de remuneração entre gêneros. Se parte significativa dos profissionais masculinos chega à mesa de negociação munida de benchmarks gerados por IA — ainda que imperfeitos — e as mulheres não recebem o mesmo suporte (ou o fazem com desconfiança), forma-se um desequilíbrio informacional capaz de se refletir em valores finais de contrato.

O relatório lembra que a própria IA está longe de ser neutra. Pesquisas acadêmicas recentes constatam que chatbots tendem a sugerir salários mais baixos para mulheres e pessoas negras. Mesmo assim, mais de três quartos dos entrevistados pela Ruth declararam desconhecer possíveis vieses nas respostas das máquinas, e 43% não acreditam que raça ou gênero influenciem as recomendações recebidas.

Outro ponto crítico: 70% dos participantes perceberam que a IA costuma soar “muito confiante” mesmo quando entrega informações erradas. A autoridade aparente pode levar o usuário a aceitar dados imprecisos sem checagem adicional.

Por que as mulheres hesitam?

A maior cautela feminina acompanha uma tendência observada em diversos levantamentos. Parte desse ceticismo se explica por preocupações éticas e pela percepção de que a automação ameaça empregos historicamente ocupados por mulheres — evidência já sinalizada pela própria Fast Company em reportagens anteriores.

Além disso, jovens mulheres parecem estar mais alertas aos vieses algorítmicos: mais de um quarto delas respondeu não ficar “nem um pouco surpresa” ao saber que a IA poderia prejudicar sua negociação salarial. Falta, porém, incentivo institucional para que elas explorem a tecnologia de forma crítica e estratégica. Estudos anteriores sugerem que empreendedoras que adotam ferramentas de IA podem colher benefícios até maiores que os homens, mas a adoção segue baixa.

Relevância para o Brasil

No contexto brasileiro, onde a diferença média de remuneração entre homens e mulheres gira em torno de 22%, segundo dados do IBGE, o avanço acelerado da IA introduz um elemento adicional de complexidade. Empresas que já incorporam chatbots a processos de RH precisam garantir transparência na geração de faixas salariais e revisar modelos para evitar replica de discriminações históricas.

Na leitura do Editorial S&N, cabe aos departamentos de Recursos Humanos e às lideranças promover capacitação específica para o uso responsável de IA, assegurando que homens e mulheres tenham acesso equilibrado a ferramentas de informação sobre carreira. Do contrário, a promessa de eficiência pode virar retrocesso.

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