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Jill Lepore detalha o “estado artificial” que ameaça a democracia, diz livro

Resumo

Jill Lepore, historiadora da Universidade de Harvard e colunista da revista The New Yorker, lança em 25 de agosto o livro “The Rise and Fall of the...

Jill Lepore, historiadora da Universidade de Harvard e colunista da revista The New Yorker, lança em 25 de agosto o livro “The Rise and Fall of the Artificial State”, no qual descreve como a coleta e a quantificação de dados transformaram corporações digitais em substitutas de funções essenciais do Estado.

Segundo Lepore, o “estado artificial” surge quando plataformas privadas passam a controlar o que tradicionalmente cabia ao poder público: a arena de debate, a gestão de informações e até a formação da vontade política. Essa tese foi discutida em entrevista recente ao podcast Decoder, da The Verge, e coloca a pesquisadora no centro do debate sobre o impacto da inteligência artificial (IA) na democracia.

Para o ecossistema de inteligência artificial, a obra se torna referência imediata porque mapeia 150 anos de evolução tecnológica — do primeiro censo moderno à micro-segmentação digital — e alerta para o risco de a política se tornar um embate de algoritmos contra algoritmos.

Como nasce o “estado artificial”

Lepore rastreia a origem do fenômeno na própria ideia de mensurar pessoas. Ela volta a 1935, quando George Gallup fundou o American Institute of Public Opinion e apresentou a pesquisa de opinião “científica” como atalho para campanhas eleitorais dispensarem o contato direto com eleitores. Para a autora, cada conversa suprimida naquela época retirou “cola cívica” da sociedade.

O ponto de inflexão, no entanto, vem nos anos 1980, com a popularização do computador pessoal e a cultura do Vale do Silício. Foi ali que a segmentação por dados — hoje base da publicidade online — tornou-se rotina tanto para marcas quanto para campanhas. Lepore ressalta que o processo acelerou até chegar a 2026, quando anúncios, escolha de públicos e até mensagens de campanha já podem ser escritos e distribuídos por IA.

Nesse cenário, plataformas como X (ex-Twitter), Facebook e TikTok teriam mais bots do que humanos interagindo, afirma a historiadora, citando estudos que monitoram a proporção de contas automatizadas. “Corporações, governos e atores não estatais usam robôs para influenciar o debate, monetizar atenção e amplificar a indignação”, resume.

Referências da ficção científica ajudam Lepore a ilustrar o perigo: em “Franchise” (1955), Isaac Asimov imaginou que um supercomputador escolheria o único eleitor considerado ‘representativo’ para definir o presidente dos Estados Unidos. Décadas depois, executivos como Sam Altman, da OpenAI, sugerem publicamente que seria “eficiente” deixar a decisão para algoritmos — ideia que a autora encara como sinal de distanciamento entre a elite tecnológica e o humanismo clássico.

Democracia versus algoritmos

A historiadora destaca que, nas primárias norte-americanas de 2026, eleitores já pedem orientação ao ChatGPT sobre em quem votar enquanto as campanhas utilizam IA generativa para redigir mensagens personalizadas. O resultado, diz, pode ser “IA contra IA” — máquinas decidindo quais conteúdos chegam aos eleitores e quais opiniões importam.

Lepore chama atenção ainda para a privatização da “praça pública” digital. Redes sociais transformaram o debate político em produto, priorizando lucro sobre deliberação. Ao mesmo tempo, dados sensíveis alimentam modelos de publicidade que classificam cidadãos como consumidores, não como participantes de uma república.

Para a S&N, esse movimento indica uma substituição silenciosa das instituições democráticas por sistemas de negócios baseados em atenção. A discussão ganha urgência porque CEOs de IA passaram a defender que “o processo democrático criará regras”, mesmo enquanto suas empresas moldam essa democracia por dentro.

Sinais de reação

Embora admita pessimismo, Lepore vê na atual geração universitária um ponto de virada. Estudantes que vaiaram executivos de IA em cerimônias de formatura recentes simbolizam, para ela, a recusa em aceitar passivamente decisões algorítmicas. O mesmo vale para comunidades que contestam centros de dados em seus bairros, apesar de interesses corporativos e políticos favoráveis.





Na leitura do Editorial S&N, a contestação pública sugere que a narrativa de inevitabilidade tecnológica começa a se romper. Ao exigir debates presenciais — “gente suando de beca no pátio”, como descreveu a autora — a sociedade pressiona por transparência e por limites claros ao uso de IA em campanhas, serviços públicos e educação.

Lepore não oferece soluções fechadas, mas propõe rediscutir processos básicos de representação: reuniões comunitárias, audiências e até a capacidade de emendar Constituições — algo que os EUA não fazem de forma substantiva desde 1971. Sem essa revisão, alerta, o “estado artificial” seguirá expandindo a lógica do consumo para todas as esferas da vida cívica.

Aos empreendedores e gestores, a mensagem ecoa como alerta estratégico: modelos de negócio que ignorarem o custo político da automação podem enfrentar leis restritivas ou boicotes organizados. O mercado de IA avança, mas a legitimidade social volta ao centro do tabuleiro — e quem não incorporar esse fator corre o risco de ficar fora da próxima rodada de inovação.

Editorial S&N

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