Markwayne Mullin assumiu o Departamento de Segurança Interna dos Estados Unidos (DHS) com uma missão clara: tocar, de maneira “mais discreta e simpática”, a campanha de deportação em massa prometida por Donald Trump. Segundo reportagem da revista norte-americana The Atlantic, o ex-senador por Oklahoma já enfrentou um teste de fogo ao tentar suspender, por menos de 24 horas, abordagens de trânsito da polícia migratória após dois civis morrerem em operações da ICE.
A medida, revogada por Trump em um post na manhã seguinte, expôs o tamanho da corda bamba em que o novo secretário caminha. Em seguida, Mullin afirmou nas redes sociais que ele e o presidente “estão na mesma página”, mas a dúvida permanece: qual é essa página?
Para o leitor que acompanha liderança e gestão pública, a história ganha relevância pois ilustra até que ponto a autoridade formal de um executivo pode ser corroída por pressões externas — tema que discutimos com frequência na editoria Liderança & Gestão.
Um currículo fora do padrão para o cargo
Mullin, 48 anos, abandonou a faculdade para tocar a empresa de encanamento da família, praticou MMA e ficou conhecido no Congresso por organizar sessões de treino bipartidárias. Não tem histórico militar, nem atuou nos comitês que supervisionam imigração. Ainda assim, Trump gostou do estilo “guerreiro MAGA” pronto para brigar em audiências e na TV.
Ele também carrega forte ligação pessoal com o presidente. Depois de seu filho sofrer grave lesão cerebral em 2020, Trump ofereceu seu avião particular para levá-lo a um centro de reabilitação e acompanhou o caso por um ano e meio, gesto que selou a lealdade mútua.
Pressão dos dois lados
O desafio central de Mullin é entregar números recordes de deportação sem ampliar o repúdio popular às cenas de violência protagonizadas por agentes da ICE. Desde que assumiu em março, o secretário tem tentado “baixar o termômetro” da cobertura jornalística, mas não das operações. As prisões diárias já voltaram ao patamar de 2.000, quase o dobro do observado na primavera.
Quando Mullin mostra qualquer hesitação sobre os custos humanos das operações, recebe ataques da ala mais dura do trumpismo, que o chama de “Markwayne Muslim” ou “Kung Fu Plumber”. Ainda assim, ele segurou iniciativas polêmicas de sua antecessora Kristi Noem, como acelerar o treinamento de recrutas da ICE ou transformar armazéns em mega-centros de detenção.
Internamente, a moral da equipe teria melhorado — funcionários passaram a chamá-lo de “MAGA Mayorkas”, em alusão ao estilo cordial de Alejandro Mayorkas, secretário do governo Biden. Mas a trégua pode ser curta: o Congresso já aprovou US$ 70 bilhões extras para a repressão migratória, e a Suprema Corte deu sinal verde para endurecer a execução.
A dimensão política e simbólica
Mullin é apenas o segundo indígena a comandar um órgão de gabinete nos EUA, embora raramente tenha exaltado publicamente sua identidade cherokee — algo que mudou quando foi acusado de tolerar racismo em audiências. Ao rebater críticas, usou a ancestralidade como escudo e declarou: “Ninguém vai me chamar de racista. Eu sou cherokee”.
Para a S&N, esse episódio evidencia como atributos identitários podem ser mobilizados taticamente por líderes em momentos de crise reputacional — fenômeno igualmente visível em corporações que buscam diversidade, mas recuam quando o tema conflita com interesses estratégicos.
Apesar do discurso moderado que reconhece o valor de “imigrantes trabalhadores que não causam problemas”, Mullin endossa plenamente o objetivo de deportar 1 milhão de pessoas por ano. A ofensiva ganhará fôlego com a provável nomeação de Lance Schroyer, ex-policial de Oklahoma e aliado do secretário, para dirigir a ICE.
Mesmo com estilo emotivo — ele se emociona ao falar da família, de vítimas de tráfico e do filho sobrevivente —, Mullin não sinalizou limites para sua fidelidade a Trump. “Seguirei o presidente em qualquer situação”, declarou antes da nomeação.
O que está em jogo para o Brasil
Embora a operação ocorra em solo americano, seus efeitos ecoam por aqui. Exportadores brasileiros podem sofrer caso trabalhadores sem documentação, parte essencial da cadeia alimentícia nos EUA, sejam removidos em massa, pressionando custos e logística. Além disso, a retórica anti-imigração tende a influenciar debates domésticos sobre controle de fronteiras e contratação de estrangeiros qualificados.
Na leitura do Editorial S&N, o caso Mullin mostra como promessas políticas extremas exigem executores dispostos a sacrificar capital próprio — e como essa lealdade, ainda que recompensada, deixa o gestor vulnerável a mudanças bruscas de comando. Para líderes corporativos brasileiros, fica a lição: autoridade sem autonomia real pode virar armadilha, especialmente quando a estratégia depende de agradar a múltiplos públicos com expectativas conflitantes.


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