Executivas e especialistas ampliam suas formas de atuação e encontram na mentoria, consultoria, empreendedorismo e construção de comunidades novos caminhos profissionais
Durante muito tempo, uma carreira bem-sucedida esteve associada a uma trajetória relativamente previsível: entrar em uma empresa, conquistar espaço, assumir posições de liderança e avançar na hierarquia. Esse modelo começa a dividir espaço com outro tipo de movimento profissional.
Mulheres que passaram 15, 20 ou até 30 anos construindo experiência dentro de organizações começam a perceber que conhecimento acumulado, capacidade de liderança, rede de relacionamentos e domínio de determinados mercados também podem ser transformados em ativos fora da estrutura corporativa tradicional.
O fenômeno acompanha o avanço do empreendedorismo feminino no país. Em 2025, mais de 2 milhões de MEIs, micro e pequenas empresas foram abertas por mulheres, o maior número já registrado no Brasil. Em dez anos, a quantidade de mulheres à frente de negócios cresceu 27%.
Por trás desses números está um grupo que nem sempre aparece quando se fala em novos empreendedores: profissionais experientes que não estão começando uma carreira, mas redesenhando uma trajetória já consolidada.
São executivas que passam a integrar conselhos, especialistas que estruturam consultorias, líderes que transformam conhecimento em mentorias e profissionais que começam a combinar diferentes atividades e fontes de receita.
Para Ana Paula França, executiva, empresária e mentora, fundadora do Acelera Mulheres, um dos primeiros desafios dessa transição é abandonar a sensação de que mudar de carreira significa voltar ao ponto de partida.
“Existe uma tendência de olhar para uma transição como se fosse necessário começar novamente do zero. Mas uma mulher que passou 15 ou 20 anos liderando pessoas, tomando decisões, resolvendo problemas e construindo resultados não está começando do zero. Existe um repertório ali. O desafio é entender onde essa experiência gera valor no próximo ciclo”, afirma.
Ana viveu esse processo na própria trajetória. Depois de mais de duas décadas ocupando posições de liderança e conduzindo equipes, operações e decisões estratégicas em grandes organizações, passou a transformar parte dessa experiência em uma nova frente empresarial.
Foi desse movimento que surgiu o Acelera Mulheres, ecossistema de desenvolvimento profissional que já ultrapassou R$ 3 milhões em faturamento com formações e mentorias voltadas a executivas.
## Conhecimento precisa encontrar mercado
A experiência acumulada, entretanto, não se transforma automaticamente em um negócio.
Esse talvez seja um dos maiores desafios para quem deixa de ter sua competência validada principalmente por um cargo ou organização e passa a precisar construir uma proposta própria no mercado.
A transição exige responder perguntas diferentes: qual problema aquela experiência consegue resolver? Quem está disposto a pagar por essa solução? Como transformar conhecimento em produto ou serviço? Como precificar, comunicar e vender essa entrega?
Larissa Mocelin, empresária, estrategista e sócia do Acelera Mulheres, acompanha esse processo de perto.
Advogada de formação, ela construiu uma trajetória que reúne direito empresarial, governança corporativa, ESG, estratégia, posicionamento e construção de marcas, além da participação na criação e gestão de diferentes negócios.
Para Larissa, domínio técnico e capacidade empresarial são competências distintas.
“Existe uma distância entre ter conhecimento e construir um negócio em torno desse conhecimento. Você precisa entender qual problema resolve, para quem resolve, como posiciona essa entrega, quanto cobra, como vende e como cria uma estrutura que consiga crescer. Experiência é matéria-prima. O negócio precisa ser construído a partir dela”, afirma.
Essa diferença tem impulsionado a procura por capacitações voltadas não apenas à aquisição de novos conhecimentos, mas à organização e monetização daqueles já adquiridos.
Pesquisa realizada em 2026 pelo Consumer Insights UOL com 1,3 mil empreendedores mostrou que 55% das mulheres empreendedoras buscam capacitação com frequência. Entre elas, 46% também apontaram a ausência de redes de apoio como uma das barreiras enfrentadas na jornada empreendedora.
## De executiva a mentora, consultora ou empresária
A transformação da experiência em uma nova atividade profissional também acompanha o avanço de um modelo conhecido como carreira portfólio.
Em vez de concentrar toda a identidade profissional em um único cargo ou empresa, a pessoa passa a reunir diferentes formas de atuação.
Uma executiva pode permanecer no ambiente corporativo e participar de conselhos. Uma especialista pode dividir o tempo entre consultoria, aulas e mentorias. Outra profissional pode deixar uma organização e criar uma empresa baseada no conhecimento desenvolvido ao longo de décadas.
“Durante muito tempo, sucesso foi associado a uma escada: você entrava em uma empresa e precisava subir. Só que existem outras formas de crescer. Em determinados momentos da vida, o movimento mais inteligente pode ser vertical. Em outros, pode ser ampliar possibilidades e construir novos espaços de atuação”, explica Ana Paula.
A mudança não significa necessariamente abandonar a carreira corporativa.
No próprio Acelera Mulheres, há programas voltados tanto para executivas que desejam continuar crescendo dentro das organizações quanto para profissionais interessadas em transformar conhecimento em negócios.
Na Formação Nacional em Mentoria Executiva, oferecida pelo Acelera Mulheres Academy, por exemplo, o ponto de partida é justamente o repertório construído durante a carreira. A partir dele, são trabalhados aspectos como posicionamento, estrutura da entrega, proposta de valor e atração de clientes.
A lógica é inverter uma pergunta recorrente em momentos de transição profissional. Em vez de olhar apenas para aquilo que ainda falta aprender, profissionais experientes começam a avaliar o que já sabem e onde esse conhecimento pode gerar valor.
## Redes profissionais também viram ativos
Outro elemento ganha importância nesse processo: relacionamento.
Durante décadas, boa parte das redes capazes de gerar oportunidades profissionais foi construída em círculos empresariais e ambientes informais que nem sempre foram igualmente acessíveis às mulheres.
O crescimento de comunidades profissionais femininas começa a criar outras possibilidades.
Nesse modelo, networking não significa simplesmente acumular contatos. Uma rede passa a ter valor quando consegue produzir trocas concretas: indicações, negócios, acesso a especialistas, oportunidades profissionais, sociedades ou mesmo informações que ajudem alguém a tomar uma decisão.
“Rede boa não é aquela em que todo mundo simplesmente se conhece. É aquela em que existe circulação de valor”, afirma Larissa. “Uma pessoa tem um conhecimento que a outra precisa, alguém abre uma porta, outra conecta duas pessoas, outra compartilha uma experiência que evita meses de erro. É aí que relacionamento começa a funcionar como ativo.”
Esse princípio está por trás da Acelera Society, comunidade que mantém participantes e ex-participantes dos programas conectadas após as formações.
A proposta acompanha uma mudança mais ampla no mercado: formação e networking deixam de funcionar necessariamente como experiências separadas e passam a integrar ambientes de desenvolvimento profissional contínuo.
## Uma nova etapa do empreendedorismo feminino
Apesar do crescimento da presença feminina nos negócios, os obstáculos permanecem.
Levantamento divulgado em agosto de 2026 aponta que 61% das mulheres empreendedoras entrevistadas relatam preconceito como uma dificuldade, enquanto 56% mencionam falta de credibilidade e sobrecarga relacionada à dupla jornada. No mesmo estudo, iniciativas específicas de apoio ao empreendedorismo feminino, incluindo mentorias e redes de suporte, alcançaram aprovação de 92% das entrevistadas.
Os dados mostram que abrir uma empresa é apenas uma parte da discussão.
Para profissionais que chegam ao empreendedorismo depois de uma longa trajetória corporativa, existe também o desafio de reorganizar conhecimento, reputação e relacionamentos em torno de uma nova identidade profissional.
Ao mesmo tempo, o movimento amplia o significado da própria liderança feminina.
Se durante anos a discussão esteve concentrada em aumentar a presença de mulheres em cargos de decisão dentro das empresas, uma nova frente começa a ganhar força: profissionais experientes passam também a criar empresas, metodologias, comunidades e redes próprias.
Nesse cenário, uma carreira de décadas deixa de ser vista apenas como histórico profissional.
Ela pode se tornar o ponto de partida para o próximo negócio.
(Fotos: Divulgação)


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