Adidas estreia na Copa do Mundo um aliado microscópico: a malha de microestruturas Nanostrike+ aplicada ao cabedal da chuteira Predator, usada por nomes como Pedri, da seleção da Espanha. A superfície, desenvolvida na Universidade de Illinois Urbana-Champaign, ajusta o nível de atrito a cada movimento e mantém o controle da bola em qualquer clima.
O segredo está em pilares com dimensões inferiores a um fio de cabelo. Criados pelo professor de engenharia mecânica Bill King, eles permanecem discretos durante conduções suaves, mas entram em ação quando a passada se transforma em chute, elevando força e rotação da bola. Segundo a S&N, a inovação reforça a tendência de materiais responsivos que conversam em tempo real com a biomecânica do atleta. Um panorama explorado em outras soluções na categoria Tecnologia.
Do laboratório ao estádio
King iniciou a pesquisa há duas décadas, inspirado na aderência das minúsculas espinhas que formam o tarso – a “sola” dos insetos. O objetivo original era fabricar componentes eletromecânicos para o Departamento de Defesa dos Estados Unidos e micropeças para bombas e motores encomendadas pelo Departamento de Energia.
O caminho comercial ganhou corpo em 2006, quando King conheceu Ralph Hulseman, então engenheiro da Michelin. Juntos, fundaram a Hoowaki e desenharam mais de 800 padrões de atrito em escala industrial. A empresa passou a vender materiais capazes de “grudar” em quase qualquer superfície, dentro e fora do esporte.
Em 2023, a Hoowaki foi procurada pela Adidas para atualizar a linha Predator. Versões anteriores da chuteira utilizavam saliências grossas de borracha que se tornavam escorregadias na chuva e pouco eficientes em jogadas de baixa pressão, como o drible. Com as microestruturas, o atrito varia conforme a intensidade do contato, evitando que a bola desvie de forma imprevisível, como explica Hulseman:
“Se o cabedal agarra demais, a bola gira de forma errática”,
disse o executivo.
Aplicações médicas improváveis
Longe dos holofotes dos gramados, a mesma tecnologia caminha pelos corredores de hospitais. A Hoowaki fabrica tubos cirúrgicos equipados com as microestruturas capazes de substituir pontos após operações no esôfago e de reparar o cólon em pacientes com câncer intestinal, dispensando a instalação de bolsas de ostomia.
“As microestruturas oferecem fricção suficiente para manter o tecido unido e acelerar a cicatrização”, afirma King. De acordo com o professor, centenas de pessoas já carregam o material dentro do corpo – um contraste notável com a leveza proposital das chuteiras.
Para a S&N, esse deslocamento de um mesmo conceito entre saúde e performance esportiva exemplifica a lógica de portfólio transversal abraçada por empresas de materiais avançados: primeiro, comprovam eficácia em setores de alta exigência técnica (caso do ambiente hospitalar) e, em seguida, escalam para mercados de consumo de massa, onde o ganho de visibilidade e de receita tende a multiplicar o investimento inicial.
Marcação cerrada da engenharia de superfícies
- 20 anos de pesquisa: tempo dedicado por Bill King e sua equipe até chegar à versão aplicada na chuteira.
- 800 micro-padrões: quantidade de texturas desenvolvidas pela Hoowaki antes de escolher a configuração usada pela Adidas.
- Centenas de pacientes: estimativa de pessoas que já se beneficiam dos dispositivos médicos baseados no mesmo princípio.
Jogadores como Jude Bellingham, da Inglaterra, também calçam o modelo Nanostrike+, cujos sulcos minúsculos podem ser notados por torcedores atentos durante transmissões em alta definição. “Estou torcendo pelos sapatos”, brinca King ao ser questionado sobre sua torcida na final da Copa.
Para além do tom descontraído, o comentário revela o potencial de influência invisível da engenharia de materiais em resultados esportivos. Se um padrão microscópico pode mudar a trajetória de um passe decisivo e, ao mesmo tempo, acelerar a recuperação de uma cirurgia complexa, abre-se espaço para que outras marcas e setores revisitem problemas antigos com a lupa da micro-fabricação.
Na leitura do Editorial S&N, o próximo drible de mercado será dado por quem conseguir conjugar escala, custo e sustentabilidade nessa onda de superfícies inteligentes – seja dentro das quatro linhas ou na mesa de cirurgia.


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