Eden Tech, startup sediada em Lockhart (Texas), acaba de revelar a Genesis, primeira centrífuga de osmose reversa em escala comercial que promete tornar a dessalinização mais barata e menos poluente. Segundo reportagem da Fast Company, o equipamento deve processar cerca de 144 mil galões de água por dia, consumindo de duas a três vezes menos energia que sistemas convencionais.
Fundada em 2020 por Hunter Manz, a empresa levantou US$ 3,3 milhões com Utah Tech University, investidores locais e fundos de venture capital. O capital custeou o aperfeiçoamento do chamado Reverse Osmosis Centrifuge (ROC), solução patenteada que gira a membrana filtrante para usar a força centrífuga como aliada ao processo de separação de sais.
Para quem acompanha inovações em tecnologia, isso significa repensar um método predominante desde os anos 1950, quando a osmose reversa substituiu a evaporação térmica nas plantas de dessalinização.
Como funciona a centrífuga ROC
Em sistemas tradicionais, a água salgada é empurrada sob alta pressão por uma membrana semipermeável: obtém-se um fluxo de água doce e outro de salmoura concentrada. De acordo com dados citados pela Fast Company, cada milhão de galões filtrados consome cerca de 15 000 kWh e aproveita apenas 30% a 40% do volume processado.
O ROC da Eden Tech opera como um “secador de salada industrial”, nas palavras de Nikolay Voutchkov, CEO da Water Globe Consultants, ouvido pelo veículo norte-americano. Ao girar a membrana, parte do trabalho de separação é feita pela própria força centrífuga, reduzindo a necessidade de pressão e, portanto, de energia. A companhia afirma que a taxa de recuperação sobe para 80%.
“A força centrífuga rompe a camada limite de sal na superfície da membrana e diminui o esforço mecânico necessário”, explicou Voutchkov à Fast Company.
Outro diferencial é a capacidade de tratar águas com salinidade elevada, como o “produced water” gerado pela indústria de petróleo e gás. A Eden Tech já assinou acordos com grandes petroleiras interessadas em reutilizar esse efluente em vez de reinjetá-lo no subsolo.
Desafios financeiros e ambientais
Projetos de dessalinização costumam esbarrar em custos bilionários — Corpus Christi, no próprio Texas, engavetou recentemente uma planta após estimar mais de US$ 1 bilhão em investimentos. Para enfrentar essa equação, a Eden Tech aposta na brine valorization, processo que extrai minerais valiosos, como lítio e rubídio, do concentrado salino.
Ao monetizar o rejeito, a startup espera reduzir o preço final da água. “Queremos gerar bilhões de dólares em receita recorrente e, com isso, financiar projetos municipais que hoje são inviáveis”, disse Manz ao veículo norte-americano.
Da indústria ao abastecimento público
Mesmo que a tecnologia prove seu valor em plantas industriais, levar água dessalinizada aos sistemas municipais exigirá superar barreiras regulatórias, direitos hídricos e receios de privatização. Manz reconhece que cada estado norte-americano tem regras próprias e poder de veto sobre quem distribui água.
Na leitura do Editorial S&N, esse modelo de negócio — unir eficiência energética, monetização do resíduo e foco em mercados segmentados como petróleo e comunidades isoladas — sinaliza uma rota possível para a dessalinização também no Brasil. Estados do Nordeste, por exemplo, estudam alternativas para reforçar o abastecimento frente a secas recorrentes. Se a tecnologia provar escala e custo competitivo nos Estados Unidos, pode ganhar tração por aqui, onde a demanda por soluções de reúso e aproveitamento de água salobra é crescente.
Nos próximos 12 meses, a Eden Tech planeja validar o desempenho da Genesis, ampliar a fabricação e iniciar operações comerciais. Caso confirme as promessas de menor consumo energético e recuperação de 80% da água, a centrífuga ROC poderá reposicionar a dessalinização como opção mais acessível diante das crises hídricas globais — um tema que, cedo ou tarde, também baterá às portas das cidades brasileiras.


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