A administração Donald Trump enviou intimações judiciais a cinco repórteres do New York Times, exigindo que eles prestem depoimento perante um grande júri federal em Manhattan sobre uma reportagem que expôs dúvidas de segurança no novo Air Force One, doado pelo Catar e modernizado ao custo de US$ 400 milhões.
Para especialistas em liberdade de imprensa, a iniciativa representa a ação mais agressiva de um governo norte-americano contra jornalistas desde a aprovação da Primeira Emenda. O Comitê para a Proteção dos Jornalistas, por meio de Jodie Ginsberg, classificou o ato como “escala extraordinária dos esforços do presidente para ameaçar e intimidar veículos independentes”.
O episódio reacende o debate sobre liberdade de imprensa, tema que a categoria Jornalismo & Imprensa de S&N acompanha de perto. Segundo o Times, algumas intimações foram entregues nas residências dos repórteres — Tyler Pager, Eric Schmitt, Eric Lipton, Adam Goldman e Julian Barnes — sinalizando a contundência do recado oficial.
Subpoenas a jornalistas do New York Times chegaram em casa
As intimações foram solicitadas por Jay Clayton, procurador federal em Manhattan, poucos dias depois de o FBI, liderado por Kash Patel, ter passado cerca de oito horas em reunião na Casa Branca para tratar do tema. A participação direta do gabinete presidencial na decisão foi descrita pelo analista Frank Sesno, ex-chefe da sucursal da CNN na Casa Branca, como “território inexplorado e perigoso”.
Mark Schoeff Jr., presidente do National Press Club, afirmou que “quando agentes federais batem à porta de jornalistas com intimações, trata-se de um ataque extraordinário à liberdade de imprensa que fere o coração da Primeira Emenda”. A entidade cobrou a retirada imediata das ordens judiciais.
Escalada jurídica contra veículos de imprensa
A ofensiva contra o New York Times é mais um capítulo da longa disputa de Trump com organizações que publicam conteúdos considerados desfavoráveis. O governo já processou redações, ameaçou caçar licenças de emissoras e pressionou a Federal Communications Commission a rever a isenção de programas como “The View” das regras de tempo igualitário.
No Pentágono, a relação também se endureceu. O Times move duas ações contra a exigência de que repórteres sejam escoltados dentro do complexo militar. Em episódios recentes, o Departamento de Justiça convocou — e depois retirou — repórteres do Washington Post e do Wall Street Journal para depor sobre vazamentos, chegando a autorizar a busca da residência da jornalista Hannah Natanson, do Post, em janeiro.
No caso atual, o New York Times prepara defesa robusta. Em memorando interno obtido pela Associated Press, o editor executivo Joseph Kahn qualificou as intimações como “abuso retaliatório do poder de acusação” e declarou confiança em que os tribunais anularão a medida. “A lei protege a apuração jornalística desse tipo de abuso. Estamos unidos para enfrentar essa ação”, escreveu, referindo-se à equipe de cinco repórteres.
Para a S&N, esse movimento indica que o embate entre a Casa Branca e veículos independentes alcançou um novo patamar, em que alavancas formais do Estado — não apenas declarações públicas ou tweets presidenciais — são mobilizadas para contestar matérias de interesse público. O recurso a grandes júris, raramente usado contra jornalistas, cria um precedente que poderá inspirar lideranças de outros países a adotar estratégias semelhantes.
Enquanto o Departamento de Justiça não se pronuncia sobre eventual recuo, a comunidade jornalística mobiliza sua influência. A National Press Club, o Comitê para a Proteção dos Jornalistas e acadêmicos como Sesno alertam que a “territorialidade inédita” do caso — orquestrada diretamente a partir da Casa Branca — põe em xeque a independência das agências de investigação, tradicionalmente apartadas de pressões políticas.
Na leitura do Editorial S&N, o desfecho do caso funcionará como termômetro da relação entre poder político e imprensa na reta final do segundo mandato de Trump. Uma decisão judicial que endosse as subpoenas poderá encorajar novas ações contra veículos críticos; a derrubada do pedido reafirmará limites institucionais à interferência governamental na cobertura jornalística.
Até lá, o New York Times reforça que “os recursos completos” da redação estão à disposição dos repórteres intimados, sinalizando união interna e disposição para litigar. Entidades civis prometem vigília constante, cientes de que o precedente poderá ultrapassar fronteiras e influenciar democracias mundo afora.
Informações de Jocelyn Noveck, Associated Press.


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