Orlando Bravo, cofundador e sócio-gestor da gestora de private equity Thoma Bravo, afirma que o uso de ferramentas de inteligência artificial reduziu as madrugadas insones dedicadas a planilhas e apresentações, mas paradoxalmente o levou a ampliar — não a cortar — o número de associados júnior.
IA reduz o “turno da madrugada” do private equity
Durante conferência em Berlim, Bravo relatou que, antes da IA, tarefas como ajustes de modelos financeiros ou refinamento de decks para potenciais aquisições costumavam gerar telefonemas de última hora a analistas e associados. Hoje, ele prefere recorrer a um chatbot ou gerador de código: “
I bother them a lot less, because at midnight I can do something really quickly with AI, instead of calling them to do it in the middle of the night, which improves their life anyway, which is what they want
”.
O relato dialoga com um tema recorrente em Wall Street: a carga horária excessiva nos estágios iniciais da carreira. Relatórios de bancos de investimento chegam a mencionar semanas de 100 horas para quem ocupa posições de entrada. Ao automatizar atividades mecânicas — da mineração de dados à formatação de slides —, a IA ataca justamente o volume de tarefas que tornava comum o e-mail disparado às duas da manhã.
Apesar do ganho de eficiência, o executivo refuta a ideia de que a automação eliminará vagas. “
If you define the role of an associate as just doing a spreadsheet, you don’t need that, but our associates are now calling on companies a lot more, they’re developing relationships with CEOs, and we need a lot more of them
”, disse.
Da planilha à conversa com o CEO
A Thoma Bravo opera com cerca de 220 funcionários e administra mais de US$ 180 bilhões em ativos, segundo dados divulgados pelo próprio gestor. O modelo de equipe historicamente enxuta foi marca registrada da casa, centrada em software e tecnologia corporativa. Agora, porém, Bravo diz que “sente a necessidade” de contratar mais associados pela primeira vez em três décadas de carreira no setor.
O motivo é a mudança no escopo das funções júnior. Em vez de dedicar a maior parte do tempo a tarefas repetitivas, os recém-contratados passam a interagir mais cedo com fundadores de empresas-alvo, acompanhar roadshows e participar de decisões de investimento. “AI will generally allow young employees to ‘mature’ faster”, resumiu o gestor.
- “A Thoma Bravo administra atualmente mais de US$ 180 bilhões em ativos.”
- “Segundo Bravo, a IA permite que ele conclua tarefas de documentação ‘muito rapidamente à meia-noite’ sem acionar a equipe.”
- “A gestora mantém cerca de 220 colaboradores e projeta aumentar esse número nos próximos ciclos de contratação.”
Em outras palavras, a automação não elimina o trabalho humano; ela desloca o foco de execução para análise, relacionamento e geração de valor — pontos críticos em negócios e inovação.
Sinal amarelo para o mercado de entrada
Embora nenhum grande banco tenha anunciado cortes em massa por conta da IA, executivos de Goldman Sachs a Citadel já anteciparam ajustes nos programas de entrada. David Solomon, CEO do Goldman, afirmou este mês que a contratação de recém-formados “pode encolher um pouco” nos próximos três anos, à medida que o trabalho se reorganiza.
O comentário de Bravo acrescenta nuances a esse debate. “AI como redutor de headcount” é uma narrativa fácil, mas o caso da Thoma Bravo sugere o contrário: ao elevar o nível das atribuições, a tecnologia pressiona as firmas a aumentar o número de profissionais capazes de dialogar com executivos C-level e interpretar dados estratégicos.
Para jovens profissionais, isso cria um cenário ambíguo: há mais oportunidades de exposição e aprendizado acelerado, mas também uma curva de exigência mais íngreme. Ferramentas generativas tornam o domínio de conceitos financeiros avançados condição inicial, não diferencial.
Em síntese, o movimento descrito por Orlando Bravo reforça que, no private equity voltado a software, a IA é menos sobre enxugar quadros e mais sobre liberar capital humano para decisões de alto impacto. O expediente noturno pode ter ficado mais curto, mas a responsabilidade dos juniores — e a necessidade de contratá-los — só tende a crescer.


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