Donald Trump voltou a mirar a indústria farmacêutica ao anunciar, na rede Truth Social, que pretende aplicar uma tarifa de 100% sobre medicamentos genéricos importados a partir de agosto de 2028, com aumento para 200% em 2029.
Segundo reportagem da Fast Company, a proposta busca “proteger o povo dos Estados Unidos” ao estimular que a produção desses remédios volte ao país. No entanto, especialistas alertam que o impacto imediato tende a recair sobre o bolso dos consumidores, já que os genéricos respondem por mais de 90% das prescrições norte-americanas.
Para quem acompanha o noticiário de Economia & Finanças, o anúncio ressoa como um novo capítulo da política tarifária agressiva que marcou o primeiro mandato de Trump. Até agora, porém, não há decreto nem norma oficial do governo que detalhem como o plano será executado.
Impacto direto da tarifa para o consumidor
A própria Associação para Medicamentos Acessíveis, que representa fabricantes de genéricos, afirmou que “são necessários mais detalhes” sobre o cronograma e defendeu soluções legislativas e regulatórias alternativas. Em nota ao site Politico, o presidente da entidade, John Murphy III, lembrou que margens apertadas fazem parte do modelo de negócios do setor — realidade que torna praticamente impossível absorver sobretaxas de 100% ou 200% sem repassar custos.
Analistas ouvidos pela Bloomberg estimam que a medida pode desorganizar a cadeia global de fornecimento antes de provocar qualquer movimento efetivo de reshoring. Jeremy Leonard, diretor da Oxford Economics, avaliou que o choque inicial tende a ser “aumento de preços e risco de desabastecimento, mais do que uma realocação rápida de fábricas para os EUA”.
O mercado financeiro captou o recado. A Fast Company cita dados do Wall Street Journal que mostram queda de até 4,3% nas ações de empresas europeias e asiáticas de genéricos na quarta-feira seguinte ao anúncio. Salil Kallianpur, consultor independente ouvido pela CNBC, foi direto: “Tarifa de 100% a 200% em um produto de margem de um dígito equivale a um aviso de saída do mercado”.
Se a oferta de genéricos encolher, pacientes norte-americanos podem ficar reféns de medicamentos de marca — historicamente mais caros. Nathan Gray, pesquisador da Universidade de Adelaide, disse à Bloomberg que o resultado final seria o oposto do pretendido: encarecer, e não baratear, as terapias.
A produção pode voltar aos EUA?
Trump argumenta que “fábricas estão sendo construídas nos Estados Unidos como nunca se viu”. Até o momento, não apresentou dados públicos que sustentem essa afirmação. Em abril, o ex-presidente já havia ameaçado impor tarifa semelhante a remédios de marca, mas várias companhias escaparam negociando reduções de preço. Ele considera a estratégia “tão bem-sucedida” que pretende mantê-la.
Na prática, levantar um complexo farmacêutico do zero pode levar mais tempo que os dois anos previstos até 2028. Além disso, a economia dos genéricos difere da dos medicamentos patenteados: preço, e não inovação, é o principal fator competitivo. A Indian Pharmaceutical Alliance, que representa 23 laboratórios, disse ao Wall Street Journal que tarifas isoladas não justificam um movimento sustentável de onshoring.
Mesmo grandes players demonstram ceticismo. Richard Saynor, CEO da Sandoz, declarou ao mesmo jornal que não há estímulo para investir nos EUA sem contrapartidas governamentais. “Vendemos um pacote de antibióticos por menos que um pacote de M&M’s. É ofensivo e dá prejuízo”, resumiu.
O que isso significa para o Brasil
Na leitura do Editorial S&N, a ofensiva tarifária de Trump sinaliza um risco global de retração na oferta de genéricos, já que o mercado norte-americano influencia volumes e preços mundo afora. Caso produtores redirecionem fábricas ou optem por abandonar determinadas moléculas, países que dependem da importação desses itens — entre eles o Brasil — podem sentir pressão de custos ao longo da cadeia.
Além disso, o episódio reforça a discussão doméstica sobre dependência externa no setor de saúde. Embora o governo brasileiro não enfrente, hoje, uma ameaça tarifária semelhante, aumenta a relevância de políticas que estimulem a produção local de princípios ativos, tema em evidência após a pandemia de Covid-19.
Para investidores e gestores de saúde suplementar, o alerta é claro: movimentos unilaterais dos EUA têm alcance bem além de suas fronteiras. Monitorar o desfecho dessa disputa e suas eventuais negociações deve fazer parte da análise de risco de quem opera no mercado farmacêutico ou precisa equilibrar orçamento de medicamentos nos próximos anos.
Até que a Casa Branca publique regras concretas, as “tarifas sobre medicamentos genéricos” permanecem uma ameaça potencial — mas já suficiente para mexer com as bolsas e acender o debate sobre acessibilidade a tratamentos essenciais.


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