O crescimento do mercado de inteligência artificial está pressionando startups europeias a avançarem mais rapidamente para os Estados Unidos, mesmo quando não havia planos formais de expansão, diz Carl Fritjofsson, que dirige o escritório de San Francisco da gestora sueca Creandum desde 2016.
Segundo Fritjofsson, há hoje mais demanda por produtos focados em IA nos EUA do que na Europa, sobretudo entre empresas que compram soluções corporativas. “Isso está fazendo com que as empresas antecipem a expansão para os Estados Unidos mais rápido do que nunca”, afirmou à Fortune.
Os números sustentam a tendência: empresas de IA concentraram 61% do capital de risco global em 2025 e capturaram entre 80% e 81% do total no primeiro trimestre de 2026, com a maior parte dessa demanda alimentada por orçamentos de compras corporativas americanas.
O portfólio da própria Creandum ilustra o fenômeno. A startup sueca Lovable, apoiada cedo pela gestora, atingiu US$ 400 milhões em receita anual recorrente em fevereiro, tendo adicionado US$ 100 milhões em um único mês com 146 funcionários, e possui avaliação de US$ 6,6 bilhões. O crescimento da empresa tem sido majoritariamente digital e transfronteiriço, atraindo usuários nos EUA sem necessidade de presença física inicial.
Para empresas com foco em clientes corporativos, porém, “estar pronta para os EUA” ainda costuma exigir que um dos fundadores vá ao país, o que complica a logística. Fritjofsson reconhece que a política de vistos da administração Trump adicionou atrito — em setembro de 2025 foi estabelecida uma taxa de US$ 100.000 para novas aplicações H-1B — mas ressalta que o visto O-1, para pessoas com “habilidade extraordinária”, tem sido um artifício viável para fundadores. Trazer membros de equipe permanece mais complexo.
Na avaliação do executivo, entretanto, o afrouxamento regulatório em favor da IA nos EUA tem sido um impulso maior do que o impacto negativo das restrições migratórias. Dados complementares mostram que o financiamento de venture na Europa alcançou US$ 58 bilhões em 2025, alta moderada de 9% em relação ao ano anterior, enquanto nos EUA empresas de IA captaram fatias substanciais do capital global no início de 2026.
O movimento é também explicado por fatores estruturais: um relatório de 2024 da Interface apontou que países europeus vêm perdendo talento em IA para os EUA. Um mapeamento indica que a Europa tem cerca de 30% mais profissionais de IA por habitante do que os EUA, mas muitos não permanecem no continente. No estágio de crescimento mais avançado, 73% dos investidores principais em empresas europeias de IA são americanos.
Casos como o da fintech Klarna, que teve de redesenhar o produto para o mercado americano antes de registrar crescimento de receita de 58% nos EUA ano a ano, representam a estratégia tradicional. Em contraste, empresas como a Lovable mostram que há modelos de escala digital que podem dispensar inicialmente presença física.
O efeito líquido, segundo investidores e dados de mercado, é que a demanda empresarial americana está reconfigurando o roteiro de internacionalização das startups europeias no setor de IA.
Com informações de Fortune

