Há 48 anos, no mês de julho, Louise Joy Brown tornou-se a primeira pessoa nascida por fertilização in vitro (FIV). Desde então, milhões de bebês vieram ao mundo com auxílio do método, que evoluiu com avanços tecnológicos, mas continua enfrentando limitações como custo, duração do tratamento e, segundo algumas métricas, queda nas taxas de sucesso.
Especialistas apontam que a reprodução humana ainda é pouco compreendida. Muitos embriões com aspecto saudável não conseguem se fixar no útero — a chamada implantação ocorre em apenas 40% a 60% dos casos observados — e os motivos para variações consideráveis entre pacientes e entre clínicas permanecem obscuros. Pesquisadores, porém, estão desenvolvendo dispositivos, algoritmos e abordagens experimentais para reduzir essa incerteza e padronizar procedimentos.
Acompanhamento da implantação e nova técnica de injeção
Na Fundação Carlos Simón, em Valência (Espanha), cientistas trabalham em equipamentos para estudar a implantação e, potencialmente, ajudar embriões a se fixarem. A equipe apresentou um dispositivo capaz de manter tecido uterino fora do corpo e um instrumento projetado para inserir o embrião diretamente no revestimento uterino por meio de um sistema com câmera, iluminação e sensor de posicionamento.
Em demonstração com um modelo anatômico e um embrião de camundongo, o protótipo permitiu ao operador visualizar o interior do útero e acionar a liberação do embrião com um pedal. O ensaio clínico do dispositivo foi iniciado recentemente: menos de dez mulheres participaram até o momento e ainda não houve gravidez obtida com o método. O diretor da fundação, Carlos Simón, lembra que os pioneiros da FIV realizaram centenas de ciclos antes de alcançar nascimentos bem-sucedidos — entre 1969 e 1978 foram 457 ciclos em 250 pessoas, resultando em apenas dois nascimentos com vida — e afirma que os testes seguem em andamento.
Seleção de gametas e embriões: testes genéticos e polêmica
Outro desafio histórico é escolher quais óvulos, espermatozoides e embriões usar. Tradicionalmente, essa seleção é feita por avaliação morfológica, mas testes genéticos ganharam espaço. O PGT-A (teste genético pré-implantacional para aneuploidia) busca identificar embriões com número anômalo de cromossomos, associados a maior risco de aborto ou de doenças genéticas. Segundo o endocrinologista reprodutivo Alan Penzias, do Boston IVF, o exame pode aumentar a taxa de nascimentos e reduzir abortos espontâneos, especialmente para mulheres com mais de 38 anos, e encurtar o tempo até a gravidez.
Entretanto, especialistas como a endocrinologista Sonia Gayete-Lafuente, do Center for Human Reproduction em Nova York, alertam que o PGT-A não oferece leitura perfeita do futuro bebê e que algumas anomalias detectadas podem se autocorrigir. Testes mais amplos, como o chamado PGT-P, que visam prever predisposições complexas (de traços físicos a aspectos cognitivos), são controversos: proibidos em países como o Reino Unido, começam a ser oferecidos em mercados como os Estados Unidos por empresas que prometem prever características variadas. Profissionais de FIV se mostram cautelosos e relutantes em recomendar esses exames fora do objetivo de prevenir doenças graves.
Inteligência artificial e automação
Ferramentas de inteligência artificial (IA) têm sido aplicadas para reconhecer padrões em imagens de laboratório. Um exemplo é o sistema Sperm Tracking and Recovery (STAR), desenvolvido no Columbia University Medical Center, capaz de analisar mais de um milhão de imagens de microscópio por hora para localizar espermatozoides em amostras com poucas células móveis; a equipe anunciou a primeira gravidez resultante desse procedimento em novembro do ano passado.
Alejandro Chavez-Badiola, endocrinologista reprodutivo, desenvolveu algoritmos de IA para classificar embriões, óvulos e espermatozoides e passou a integrar essas ferramentas a equipamentos motorizados. Sua empresa, Conceivable, testou sistemas automatizados primeiro em células animais e depois em humanas. O dispositivo tem sido usado para preparar gametas, fertilizar e cultivar embriões; ao menos 19 crianças nasceram após procedimentos parcialmente automatizados. Chavez-Badiola e outros defensores da automação argumentam que robôs somados à IA podem padronizar etapas da FIV, economizar tempo dos embriologistas e reduzir variações entre laboratórios, potencialmente tornando o tratamento mais acessível.
Edição genética: debates e limites
Alguns cientistas propõem o uso de edição gênica, como CRISPR, para corrigir mutações em embriões antes da transferência. O exemplo mais notório foi o do biofísico He Jiankui, cuja intervenção resultou no nascimento de três crianças no fim dos anos 2010 e levou a ampla condenação e prisão por três anos.
Cathy Tie, hoje à frente da startup Origin Genomics, defende o desenvolvimento da edição embrionária como forma de prevenir doenças graves — citando condições como fibrose cística, Huntington e anemia falciforme — mas o caminho é repleto de desafios técnicos, legais e éticos. A maioria das doenças é influenciada por múltiplos genes e por fatores ambientais e comportamentais, o que limita a aplicabilidade da edição. Pesquisadores apontam riscos desconhecidos de efeitos adversos e temores de que a prática abra espaço para aprimoramentos genéticos com implicações éticas amplas.
Laura Rienzi, embriologista clínica e diretora científica da rede IVIRMA, afirma esperar que a tecnologia seja desenvolvida dentro de um marco regulatório e restrito a condições específicas, mas ressalta que a adoção segura dependerá de supervisão e limites legais.
Enquanto essas tecnologias avançam — algumas já gerando bebês saudáveis — a reprodução assistida segue em transformação, com pesquisadores tentando equilibrar inovação, eficácia, segurança e considerações éticas.
Com informações de Mittechreview

