Manacapuru (AM) – Entre biojoias, grafismos indígenas, culinária regional e cosméticos naturais, 40 mulheres ocuparam neste sábado (18) um espaço central na programação dos 94 anos de Manacapuru. A Feira das Mulheres Empreendedoras, promovida pela Secretaria Municipal de Políticas para as Mulheres (SEMPM), tem a aparência de um evento local – mas os números por trás dela contam uma história maior, que a Sonho & Negócios foi apurar.
Só em 2025, as expositoras de Manacapuru movimentaram mais de R$ 128 mil em vendas realizadas durante eventos como o aniversário da cidade, o Festival de Cirandas, a ExpoManacá e o Manacá Fest. É um número modesto perto do PIB municipal, mas relevante quando se olha para quem o gerou: mulheres que, em grande parte, formalizaram ou estruturaram seus negócios a partir de cursos oferecidos pela própria SEMPM, pelos Centros de Referência de Assistência Social (CRAS), pelos Centros de Convivência e pelo programa Qualifica+Mulher.
Um estado onde 3 em cada 10 negócios já são liderados por mulheres
O caso de Manacapuru não é isolado – é sintoma. Levantamentos do Sebrae Amazonas mostram que o estado tem hoje 175,7 mil mulheres à frente de pequenos negócios, o equivalente a 30,8% do total de donos de empreendimentos amazonenses. Em 2012, essa fatia era de 25%. O crescimento de quase 6 pontos percentuais em pouco mais de dez anos coloca o empreendedorismo feminino como um dos vetores mais consistentes de transformação econômica no estado.



O perfil setorial dessas empreendedoras amazonenses ajuda a explicar a cara da feira de Manacapuru: 44,5% delas atuam em serviços e 34,1% em comércio, justamente os segmentos de moda, cosméticos, artesanato e gastronomia que dominaram as barracas do evento. Agropecuária (11%) e indústria (10,3%) completam o quadro – nichos onde as biojoias e a arte indígena expostas na feira também encontram espaço.
O desafio que os números escondem: informalidade e diferença de renda
Nem tudo nesse crescimento é linear. Estudos recentes do Sebrae apontam que 84,7% das empreendedoras amazonenses ainda operam sem CNPJ – um indicador de que a expansão do protagonismo feminino nos negócios ainda caminha, em grande parte, à margem da formalização. Nacionalmente, o cenário se repete em outro dado: mulheres à frente de negócios recebem, em média, 24% menos que os homens no mesmo posto, embora essa diferença já tenha caído 9,5 pontos percentuais desde 2012.
É exatamente nesse ponto que iniciativas como a de Manacapuru ganham peso estratégico. Qualificação, formalização e acesso a vitrines de venda – os três pilares do trabalho da SEMPM com as expositoras – são hoje apontados por especialistas como o caminho mais direto para reduzir tanto a informalidade quanto o hiato de renda entre empreendedores e empreendedoras.


Um movimento nacional com raiz no interior
O Brasil tem hoje 10,4 milhões de mulheres à frente de negócios, contra 8,2 milhões em 2015 – um crescimento de 27% em dez anos, ritmo 16 pontos percentuais mais rápido que o registrado entre os homens no mesmo período, segundo o Sebrae Nacional. É a maior marca já registrada na série histórica da pesquisa.
Esse movimento não nasce nas capitais. Cresce, sobretudo, em municípios como Manacapuru, onde políticas públicas locais – cursos, oficinas, espaços de comercialização vinculados a datas comemorativas – funcionam como a porta de entrada para que uma artesã ou uma produtora de cosméticos naturais deixe de vender informalmente entre vizinhas e passe a integrar as estatísticas de um movimento econômico maior.
“Cada produto exposto representa independência financeira”
Para a secretária municipal de Políticas para as Mulheres, Hariany Campelo, é justamente essa passagem – do informal ao estruturado – que dá sentido à feira.
“A Feira das Mulheres Empreendedoras é uma oportunidade para que essas mulheres apresentem seus talentos, ampliem sua renda e fortaleçam seus negócios. Cada produto exposto representa dedicação, superação e independência financeira”, afirma a secretária.
Criada em 2022, a feira já é hoje uma peça fixa do calendário de eventos de Manacapuru – e, à luz dos números do Sebrae, também uma peça pequena, mas coerente, de um tabuleiro econômico muito maior: o de um Amazonas onde, a cada dez novos negócios, três já nascem liderados por mulheres.

Fontes: Prefeitura de Manacapuru / SEMPM; Sebrae Amazonas (Estudo sobre Empreendedorismo Feminino no Amazonas, base Pnad Contínua/IBGE, 4º trim. 2024); Agência Sebrae de Notícias (dados nacionais, dez. 2025).


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