O roteirista e criador Michael Patrick King, de 71 anos, afirmou que a inteligência artificial pode representar um “evento de extinção” para a escrita, durante conversa sobre a terceira temporada de The Comeback, série que ele co-criou com Lisa Kudrow. Na nova leva de episódios, Valerie Cherish, personagem de Kudrow, aceita protagonizar uma sitcom que, secretamente, foi escrita por IA — ponto central da temporada que explora o impacto da automação na indústria do entretenimento.
King é conhecido por trabalhos como Sex and the City — que gerou filmes e a série sequência And Just Like That… — e pela sitcom 2 Broke Girls. The Comeback, considerada cult, estreou em 2005, ganhou uma continuação em 2014 e agora retorna com uma terceira temporada concluída, cada ciclo aparecendo com intervalos de cerca de dez anos.
Segundo King, a decisão temática da nova temporada surgiu após conversas sobre a greve dos roteiristas de 2023 e uma previsão de que negociações teriam de ser revisitadas em três anos por causa da IA. A partir dessa constatação, ele e Kudrow desenvolveram a ideia de colocar a protagonista diante de um produto criativo gerado por tecnologia, transformando a ansiedade industrial em uma vertente mais sombria e urgente da sátira.
Pesquisa e reação do público
King disse ter se baseado em entrevistas com especialistas para moldar a narrativa: a resistência pública costuma aumentar quando a IA começa a produzir arte, mais do que quando é aplicada a tarefas administrativas. Essa percepção influenciou a construção do suspense da temporada, em que ninguém admite publicamente recorrer à IA para criar conteúdo a menos que o resultado pareça funcionar.
O criador também comentou escolhas de tom e formato. The Comeback sempre transitou entre comédia e tragédia, sem os tradicionais indicativos de riso, o que tornou natural abordar o tema da IA como um thriller cômico. Uma cena da quarta sequência exemplifica a questão: roteiristas rejeitam uma piada própria e acabam usando uma sugestão da máquina, à qual a plateia responde positivamente, gerando frustração nos autores.
O futuro do formato e da escrita
King defende que a boa sitcom continua relevante e economicamente eficiente, e lamenta que poucos tentem reinventar o formato atual. Ele também avaliou aplicações práticas da IA: ferramentas de transcrição são úteis e eficientes, mas resumos automáticos preocupam por poderem achatar o processo criativo, que muitas vezes depende de descobertas acidentais no próprio trabalho de escrita.
Sobre o desfecho da série, King afirmou que ele e Kudrow consideram a terceira temporada um encerramento adequado. O episódio final, intitulado “Valerie Cherish”, concentra-se na personagem de forma direta, marcando o fechamento da narrativa que percorreu as três temporadas. A gravação da última cena foi, segundo ele, inesperadamente emotiva para os criadores.
King reconheceu que a tecnologia continuará avançando e que será preciso adaptação, mas ressaltou que os sentimentos e conflitos humanos — que fazem parte do processo criativo — não devem ser descartados em nome da eficiência.
Com informações de Fastcompany
