Como resorts estão deixando de vender hospedagem para vender experiência

Como resorts estão deixando de vender hospedagem para vender experiência

Com avanço do turismo de proximidade no Brasil, modelo que integra eventos, gastronomia e lazer ganha força e orienta expansão para o interior paulista

O crescimento do turismo doméstico e a consolidação das viagens de curta duração vêm mudando a lógica de operação dos resorts no Brasil. Mais do que oferecer hospedagem, empreendimentos do setor passaram a estruturar experiências completas dentro da própria operação, com impacto direto na ocupação, no ticket médio e na previsibilidade de receita.

Segundo dados do Ministério do Turismo, mais de 60% das viagens realizadas por brasileiros são feitas dentro do próprio estado ou em destinos próximos, movimento que se intensificou nos últimos anos e reforçou o chamado turismo de proximidade. Ao mesmo tempo, levantamentos do setor indicam que o viajante passou a valorizar cada vez mais experiências completas, priorizando destinos que concentrem lazer, gastronomia e entretenimento no mesmo local.

Nesse cenário, resorts que conseguem gerar demanda própria — sem depender exclusivamente da atratividade do destino — vêm ganhando vantagem competitiva.

Um exemplo desse modelo pode ser observado na operação do Santíssimo Resort, em Tiradentes, que estruturou sua estratégia a partir da integração entre lazer familiar, eventos, gastronomia e programação contínua.

Hoje, o empreendimento opera com taxa média de ocupação em torno de 60%, com meta de atingir 70%, sustentada por um mix que combina público de lazer e outras frentes de receita.

“Quando o resort passa a construir a experiência dentro da operação, ele deixa de depender só do destino. A gente começa a gerar fluxo próprio e a ter mais previsibilidade de ocupação”, afirma Lúcio Barbosa, diretor-geral do Santíssimo Resort.

Evento deixa de ser apoio e passa a gerar demanda

Dentro desse modelo, eventos deixaram de ser ativação pontual para assumir papel estratégico.

Na unidade de Tiradentes, iniciativas proprietárias como o Planeta Tiradentes, que reúne milhares de pessoas em apresentações musicais, e o Caminhos de Fogo, voltado à gastronomia, passaram a funcionar como indutores de fluxo, ampliando a ocupação inclusive fora dos períodos tradicionais de alta temporada.

Esse tipo de estratégia responde a um dos principais desafios do setor: reduzir a sazonalidade e equilibrar a operação ao longo do ano.

Gastronomia e programação ampliam valor percebido

Outro movimento relevante é a mudança no papel da gastronomia dentro dos resorts. De serviço complementar, ela passa a atuar como elemento central da experiência e do posicionamento do produto.

Esse comportamento acompanha uma tendência mais ampla do turismo. De acordo com levantamento da Booking.com, mais de 70% dos viajantes brasileiros afirmam buscar experiências gastronômicas como parte essencial da viagem, o que reforça o potencial desse ativo na decisão de compra.

Aliado a isso, a programação estruturada — com recreação, atividades e eventos — contribui para aumentar o tempo de permanência e o valor percebido da diária.

Modelo híbrido melhora estabilidade da operação

A combinação entre diferentes perfis de público também se torna estratégica.

No caso do Santíssimo, a operação trabalha com um mix em que cerca de 70% da demanda está ligada ao lazer familiar e 30% ao público corporativo, eventos e grupos organizados. Esse equilíbrio permite manter ocupação durante a semana e reduzir oscilações típicas de resorts exclusivamente voltados ao lazer.

Interior ganha protagonismo com viagens curtas

O fortalecimento do turismo de proximidade também tem impulsionado investimentos fora dos grandes centros.
Regiões com boa acessibilidade rodoviária e proximidade de polos econômicos, como a Região Metropolitana de Campinas, passaram a concentrar novos projetos, especialmente aqueles capazes de oferecer experiência completa sem depender da infraestrutura urbana das capitais.

É nesse contexto que o modelo desenvolvido em Tiradentes passa a orientar a expansão do Santíssimo Resort para São Paulo.

Expansão baseada em modelo já validado

A nova unidade, em implantação em Santo Antônio de Posse, terá 104 apartamentos na primeira fase, capacidade para mais de 500 hóspedes simultaneamente e projeção de expansão gradual para até 1.000 unidades ao longo dos próximos anos.

A expectativa é atingir cerca de 50% de ocupação já no primeiro ano de operação, apoiada na estratégia de lazer familiar, eventos e diversificação de público.

Segundo Lúcio Barbosa, a expansão não parte de uma aposta conceitual, mas de um modelo já testado.
“O que a gente leva para São Paulo não é um discurso. É uma operação que já foi construída na prática. A diferença é que agora estamos estruturando isso desde o início do projeto”, afirma.

De hospedagem a destino

A consolidação desse modelo aponta para uma mudança mais ampla no setor.

Resorts deixam de competir apenas por localização ou preço e passam a disputar relevância na experiência. Nesse cenário, a capacidade de gerar demanda própria se torna um dos principais diferenciais competitivos.